bets
Anna Tolipova

As apostas online, as famosas bets, passaram a ocupar o centro da dinâmica do endividamento no Brasil e já superam o peso de fatores tradicionais como juros e acesso ao crédito. É o que aponta estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School, divulgado na última terça-feira (24), que identifica uma mudança no perfil das dívidas das famílias ao longo da última década.

A pesquisa analisou dados entre 2011 e 2025 com base em séries do Banco Central, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e em indicadores de comportamento digital ligados ao interesse por apostas. O resultado mostra que o coeficiente das bets no endividamento chega a 0,2255, superando com margem ampla o crédito (0,0440) e os juros (0,0709). Mesmo somados, esses dois fatores não alcançam o impacto das apostas sobre a evolução das dívidas.

Do crédito ao consumo: o deslocamento da dívida

O dado indica uma mudança relevante na forma como o endividamento se forma no país. Se até a metade da década passada a expansão das dívidas estava diretamente ligada ao custo do dinheiro ou à oferta de crédito, o avanço das plataformas de apostas desloca esse eixo para o comportamento de consumo. A partir da legalização das bets em 2018 e da rápida disseminação dessas plataformas, parte da renda disponível passa a ser direcionada a um gasto recorrente, de retorno esperado negativo e com alta frequência.

Para Claudio Felisoni, presidente do Ibevar, o fenômeno já deve ser tratado como variável econômica. “O crescimento acelerado do mercado de bets não é apenas uma questão regulatória ou tributária. Trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, afirma.

Pressão no orçamento e efeito em cadeia dos bets

Na ponta, o impacto aparece sobretudo nas famílias de menor renda, onde perdas recorrentes levam ao uso de crédito mais caro para recompor o orçamento. O resultado é um ciclo que combina redução da renda disponível, aumento do endividamento e deterioração da capacidade de pagamento.

Levantamento da Loft em parceria com a Offerwise, realizado entre setembro e outubro de 2025, mostra que 31% dos inquilinos afirmam ter atrasado ou conhecer alguém que atrasou o aluguel por causa de apostas, enquanto 74% reconhecem que as bets contribuem para o endividamento familiar. O dado indica que o fenômeno já ultrapassa o consumo discricionário e começa a afetar despesas básicas.

O estudo do Ibevar também aponta que o Brasil segue uma trajetória semelhante à observada em outros países após a legalização das apostas. Nos Estados Unidos, a expansão do setor foi acompanhada por queda na poupança e redução nos investimentos financeiros, com evidências de substituição direta de recursos: dinheiro antes destinado a aplicações passa a ser direcionado a apostas.

No caso brasileiro, a rápida penetração das plataformas e a entrada massiva de usuários aceleram esse processo. Mais do que um hábito de consumo, as apostas passam a atuar como um vetor que reorganiza a circulação da renda dentro das famílias e redefine os determinantes do endividamento no país.

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