
Com um balanço parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontando para pelo menos 20.501 candidatos registrados em todo o país, as eleições de 2026 desenham um cenário que contradiz a retórica de renovação da política brasileira. Em vez de uma onda de novos nomes, o pleito consolida um fenômeno histórico e transversal: a reprodução das dinastias políticas. Um levantamento da revista CartaCapital mapeia dezenas de candidatos a cargos majoritários e proporcionais que são filhos, netos ou cônjuges de políticos, demonstrando que a herança familiar funciona como uma poderosa vantagem de largada, independentemente da ideologia.
A expressão mais midiática desse movimento é a família Bolsonaro. Com Jair Bolsonaro fora da urna, mas atuando como o principal ativo político do clã, a estratégia de sucessão é clara e abrange múltiplos cargos: Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República, Carlos concorre ao Senado por Santa Catarina, e Jair Renan busca uma vaga na Câmara dos Deputados pelo mesmo estado. O caso ilustra como o capital político acumulado é transferido geracionalmente para manter a influência no centro do poder.
No entanto, reduzir o fenômeno a um único grupo seria um erro de análise. A reprodução familiar atravessa esquerda, centro e direita, envolvendo tanto iniciantes quanto nomes com longa trajetória própria. Em Alagoas, a sucessão é explícita: Álvaro Lira, o “Alvinho”, de apenas 20 anos, disputa a Câmara enquanto seu pai, Arthur Lira, concorre ao Senado. Renan Calheiros busca a reeleição à Casa Alta, enquanto seu filho, o governo do estado. Em Pernambuco, o duelo pelo governo estadual opõe João Campos (filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes) a Raquel Lyra, filha do ex-governador João Lyra Neto. Até mesmo na esquerda raiz, nomes como Zeca Dirceu (PR) mantêm a linhagem ativa no Congresso.
A dinâmica vai além do peso do sobrenome. Especialistas apontam que a herança política garante acesso antecipado a estruturas partidárias, alianças com prefeitos e vereadores, financiadores consolidados e bases eleitorais já estabelecidas. Na Paraíba, por exemplo, a reprodução familiar se ramifica por diferentes campos: Efraim Filho disputa o governo, Veneziano Vital do Rêgo concorre ao Senado e Hugo Motta busca a reeleição para a Câmara. Todos são descendentes de trajetórias consolidadas, blindando o poder local em um verdadeiro monopólio regional.
Outros casos reforçam a capilaridade do fenômeno. No Maranhão, Pedro Lucas Fernandes e Marreca Filho pleiteiam vagas na Câmara; na Bahia, Diego Coronel, Félix Mendonça Jr., Gabriel Nunes e Mário Negromonte Jr. repetem a fórmula de sucessão. No Senado, a presença de nomes como Ciro Nogueira (PI) e Simone Tebet (SP) também carrega o peso da herança política, ainda que ambos possuam carreiras individuais de destaque e méritos próprios.
A legislação eleitoral não veda a candidatura de parentes, e é inegável que muitos desses políticos construíram trajetórias sólidas. Contudo, a onipresença de “nepo babies” em 2026 levanta um debate fundamental sobre a democracia representativa: até que ponto o sistema permite a competição justa quando o ponto de partida é tão desigual? Com mais de 20 mil candidatos na disputa, a permanência dessas redes de poder sugere que, no Brasil, a política continua sendo, em grande medida, um assunto de família.