
A China e a Rússia manifestaram apoio público ao governo de Cuba após os Estados Unidos anunciarem acusações contra o ex-presidente cubano Raúl Castro pelo caso do abate de dois aviões civis americanos em 1996. A reação dos dois aliados históricos de Havana elevou o tom diplomático em torno de um episódio que voltou ao centro da política internacional quase três décadas depois do incidente.
Nesta quinta-feira (21), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que Pequim apoia “firmemente Cuba na salvaguarda da sua soberania e dignidade nacional” e condenou o que chamou de “interferência externa” dos Estados Unidos. Segundo ele, a China se opõe a sanções unilaterais que não tenham autorização do Conselho de Segurança da ONU e considera ilegais medidas adotadas fora do direito internacional.
A manifestação ocorreu depois que o Departamento de Justiça dos EUA anunciou acusações formais contra Raúl Castro e outros cinco investigados por suposto envolvimento na derrubada de dois aviões da organização Brothers to the Rescue, em fevereiro de 1996. O episódio ocorreu próximo ao espaço aéreo cubano e provocou a morte de quatro pessoas.
Caso de 1996 volta ao centro da disputa diplomática
O incidente aconteceu em 24 de fevereiro de 1996, quando dois aviões civis da organização anticastrista Brothers to the Rescue foram abatidos por caças da Força Aérea Cubana sobre o Estreito da Flórida. O grupo, formado por exilados cubanos radicados nos Estados Unidos, realizava missões de busca de migrantes e também lançava panfletos políticos sobre Havana.
Na época, o governo cubano alegou que as aeronaves haviam violado repetidamente o espaço aéreo da ilha e afirmou que a ação militar foi uma resposta à ameaça à soberania nacional. Já os Estados Unidos sustentam que os aviões estavam em espaço aéreo internacional quando foram atingidos.
O episódio provocou uma das maiores crises diplomáticas entre Washington e Havana após o fim da Guerra Fria e levou à aprovação da Lei Helms-Burton, que endureceu o embargo econômico americano contra Cuba.
Agora, quase 30 anos depois, o Departamento de Justiça americano afirma possuir novos elementos para responsabilizar formalmente integrantes da cúpula cubana da época, incluindo Raúl Castro, então ministro das Forças Armadas Revolucionárias e um dos principais nomes do regime liderado por Fidel Castro.
Rússia acusa EUA de “pressão política”
Além da China, a Rússia também saiu em defesa de Cuba. O Ministério das Relações Exteriores russo afirmou que Moscou rejeita “tentativas de pressão política e judicial contra dirigentes cubanos” e classificou as acusações americanas como parte de uma estratégia de “hostilidade prolongada” contra Havana.
A aproximação entre Rússia, China e Cuba vem se intensificando nos últimos anos em meio ao agravamento das tensões entre Moscou e o Ocidente após a guerra na Ucrânia e à crescente disputa estratégica entre Washington e Pequim.
Especialistas em relações internacionais avaliam que a reação coordenada de chineses e russos demonstra que Cuba voltou a ocupar papel simbólico importante na disputa geopolítica entre grandes potências. Nos últimos meses, Havana ampliou acordos econômicos e militares com Moscou e Pequim, incluindo negociações em energia, telecomunicações e infraestrutura.
Cuba reage e fala em “agressão jurídica”
O governo cubano classificou as acusações americanas como “absurdas” e acusou Washington de tentar reabrir um caso histórico para alimentar tensões políticas internas nos Estados Unidos, especialmente em ano pré-eleitoral.
Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores de Cuba, Havana afirmou que a decisão americana representa uma “agressão jurídica sem fundamento” e reafirmou a posição histórica de que os aviões violaram o espaço aéreo cubano em diversas ocasiões antes do incidente de 1996.
Raúl Castro, hoje com 94 anos, deixou oficialmente a liderança do Partido Comunista Cubano em 2021, encerrando mais de seis décadas de domínio político da família Castro sobre a ilha. Apesar disso, continua sendo uma das figuras mais influentes da história recente de Cuba e símbolo central da Revolução Cubana iniciada em 1959.
Caso reacende tensão entre EUA e aliados de Havana
A nova ofensiva judicial americana acontece em um momento de deterioração das relações entre Washington e Havana. Embora o governo Barack Obama tenha promovido uma reaproximação histórica entre os dois países a partir de 2014, parte das sanções voltou a ser ampliada durante a gestão Donald Trump e permaneceu em vigor nos anos seguintes.
Analistas internacionais avaliam que o caso pode aprofundar ainda mais a aproximação entre Cuba, Rússia e China, sobretudo diante do atual cenário de polarização global e disputas estratégicas entre as grandes potências.
A retomada do caso também reacende debates sobre soberania, jurisdição internacional e o alcance de decisões judiciais americanas envolvendo autoridades estrangeiras décadas após acontecimentos ligados à Guerra Fria.