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A crise que atinge parte do varejo brasileiro não é um colapso sistêmico, mas o resultado de fragilidades acumuladas ao longo de ciclos econômicos, agravadas por juros altos, inadimplência recorde e restrição de crédito.

O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, após prejuízo de R$ 10 bilhões e fechamento de 298 lojas, acendeu o alerta.“O cenário atual está fazendo uma seleção mais dura entre empresas com balanços saudáveis e geração de caixa e aquelas que dependem excessivamente de dívida para sustentar suas operações”, afirma Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, à CNN Brasil.

A raiz do problema está na combinação de juros elevados, crédito escasso e endividamento das famílias. Mais de 9,1 milhões de brasileiros estão inadimplentes, segundo a Serasa Experian. “Juros elevados, crédito escasso, endividamento das famílias e perda de poder de compra pressionam o consumidor”, diz Tozzi. Isso afeta especialmente o varejo de bens duráveis, dependente de parcelamento e crediário. O varejista que depende da mecânica do crediário paga a Selic duas vezes.

O caso Americanas agravou o quadro ao elevar a percepção de risco. “O que era um instrumento rotineiro passou a ser esquadrinhado: os credores ficaram mais exigentes com transparência e garantias”, explica Cláudio Damasceno, da consultoria RGF Bizdoc. Tozzi reforça que o crédito não desapareceu, mas ficou “mais seletivo e mais caro”.

Supermercados e farmácias seguem resilientes, enquanto o varejo digital avança. O estresse está concentrado no varejo de duráveis, que opera com lojas físicas e depende de capital de giro. “É neste varejo que está o ‘estresse’”, afirma Jéssica Costa, da AGR. A alta da Selic, que chegou a 15% em 2025 e hoje está em 14%, tornou dívidas mais caras e reduziu a demanda.

Casas Bahia e Marabraz enfrentam desafios distintos: a primeira não conseguiu avançar na reestruturação operacional; a segunda sofreu com disputas societárias que travaram garantias. A recuperação judicial, porém, não significa falência. “Permite que a companhia siga operando, empregando e negociando com o mercado”, explica Jorge Ferreira, da ESPM ao Infomoney.

O impacto chega ao consumidor: critérios de crédito mais rígidos, prazos menores e menos promoções. “’24 vezes sem juros’ não é promoção, é produto financeiro bancado por capital de giro”, diz Costa. A crise também afeta entregas, assistência técnica e estoques.

Apesar da turbulência, não há colapso. Dados do IBGE mostram crescimento de 2,9% nas vendas do varejo em junho deste ano. O setor avança, mas com uma divisão clara entre quem tem caixa e quem depende de dívida. Como resume Damasceno: “Onde houver crediário, estoque financiado e dívida cara, haverá mais casos”.

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