
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo Lula (PT) na Câmara dos Deputados, acionou na segunda-feira (12) a Procuradoria-Geral da República (PGR) para pedir a abertura de investigação criminal contra o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o empresário Luciano Hang por publicações relacionadas ao caso da marca Ypê após alertas sanitários emitidos pela Anvisa.
Na representação encaminhada à PGR, Rogério Correia sustenta que os investigados podem ter cometido crimes de perigo para a vida ou saúde de terceiros, incitação ao crime e infração de medida sanitária preventiva ao incentivar consumidores a continuarem utilizando produtos atingidos pelas medidas cautelares da Anvisa.
Segundo o documento, os envolvidos utilizaram redes sociais para desacreditar a atuação da agência reguladora, sugerir perseguição política contra a empresa e estimular seguidores a manterem o consumo dos produtos mesmo após os alertas técnicos emitidos pela autoridade sanitária.
“A campanha política dos representados caminhou em sentido oposto: transformou a cautela em fraqueza, a fiscalização em perseguição e o consumo do produto em prova de identidade política”, afirma a representação apresentada à PGR.
Anvisa apontou falhas graves e risco sanitário
O caso ganhou repercussão nacional após a Anvisa determinar, no último dia 7 de maio, o recolhimento, a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso de produtos lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê fabricados na unidade da empresa em Amparo, interior de São Paulo. A medida atingiu todos os lotes com numeração final 1.
Segundo a agência, a decisão foi tomada após avaliação técnica de risco sanitário identificar “falhas graves” nos sistemas de controle de qualidade, produção e garantia de segurança sanitária da fábrica. A fiscalização foi realizada em conjunto pela Anvisa, pelo Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e pela Vigilância Sanitária de Amparo entre os dias 27 e 30 de abril.
A representação enviada à PGR afirma ainda que parte dos produtos atingidos apresentou contaminação pela bactéria Pseudomonas aeruginosa, microrganismo resistente a antibióticos e potencialmente perigoso para crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas.
Segundo informações da própria Anvisa e reportagens da CNN Brasil e da revista Veja, o histórico recente da Ypê também pesou na decisão da agência. Em novembro de 2025, lotes de produtos da marca já haviam sido recolhidos após episódios de contaminação microbiológica envolvendo a mesma bactéria.
A Anvisa informou ainda que a ação fiscal de 2026 levou em conta não apenas as irregularidades atuais, mas também um histórico de suspensões envolvendo produtos da empresa em 2024 e 2025.
Bolsonaristas transformaram caso em disputa política
Após a divulgação das medidas sanitárias, lideranças bolsonaristas passaram a publicar vídeos e mensagens em defesa da Ypê nas redes sociais. Parte das postagens sugeria que a empresa estaria sendo alvo de perseguição política por supostas ligações com apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A representação apresentada por Rogério Correia cita vídeos do senador Cleitinho Azevedo criticando a Anvisa e relacionando a medida à doação eleitoral feita por integrantes da família Beira, controladora da Ypê, à campanha de Bolsonaro em 2022. “Vale uma coincidência também que essa empresa, a YPÊ, em 2022, ela doou para a campanha do Bolsonaro. É só uma coincidência”, afirmou o senador em trecho reproduzido no documento.
O deputado Nikolas Ferreira também aparece na representação após publicar vídeo sugerindo que a suspensão poderia beneficiar concorrentes da empresa. “Sinceramente, não é novidade pra ninguém que as instituições do Brasil, elas estão viciadas”, declarou o parlamentar em trecho citado pela peça enviada à PGR.
Já Luciano Hang divulgou vídeos defendendo a empresa e insinuando perseguição política contra empresários alinhados à direita. “O YPÊ também. Cuidado, as eleições estão chegando. Quem é do lado certo vai ser perseguido”, afirmou o empresário.
Michelle Bolsonaro foi incluída na representação após publicar fotografia utilizando detergente da marca durante a mobilização digital de apoiadores contra a decisão da Anvisa.
Segundo Rogério Correia, o conjunto das publicações teve potencial de enfraquecer medidas sanitárias e estimular consumidores a ignorarem orientações técnicas da agência reguladora. “A partir do momento em que uma liderança política normaliza o uso de produto sob alerta, a barreira técnica de proteção sanitária é enfraquecida”, sustenta o documento.
Caso Ypê reacende debate sobre negacionismo sanitário
Na representação enviada à PGR, Rogério Correia associa o episódio ao ambiente de desinformação e negacionismo observado durante a pandemia de Covid-19, período em que parte de lideranças bolsonaristas passou a questionar vacinas, recomendações científicas e medidas sanitárias adotadas por órgãos públicos.
“Não podemos permitir que lideranças políticas com milhões de seguidores transformem riscos à saúde pública em palanque eleitoral”, afirmou o deputado.
O documento pede que a PGR abra procedimento investigatório criminal e determine às plataformas digitais a preservação de vídeos, comentários, repostagens, impulsionamentos, métricas de alcance e metadados relacionados às postagens dos investigados.
A representação também solicita que a Anvisa envie à Procuradoria cópia integral do processo administrativo envolvendo os produtos da Ypê, incluindo laudos técnicos, relatórios de inspeção, análises laboratoriais e manifestações sobre os riscos sanitários relacionados ao caso.
Enquanto isso, a Ypê afirma que apresentou recurso administrativo contra a decisão da Anvisa. Segundo a empresa, o protocolo do recurso suspendeu automaticamente os efeitos da medida cautelar até nova manifestação da diretoria colegiada da agência reguladora. Mesmo assim, a Anvisa mantém orientação para que consumidores não utilizem os produtos atingidos pelos alertas sanitários até conclusão definitiva da análise técnica.