Ricardo Stuckert/PR

A sucessão de António Guterres no comando da ONU abriu uma nova frente de divergência entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e países vizinhos. O presidente brasileiro faz campanha pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet, enquanto Argentina, Paraguai e o atual governo do Chile apoiam o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica.

A disputa ocorre em um momento de crescente tensão diplomática na América do Sul e deve ganhar importância nos próximos meses. A expectativa é de que o próximo secretário-geral seja latino-americano, após quase uma década de comando europeu. Além de Bachelet e Grossi, estão entre os principais nomes Rebeca Grynspan, da Costa Rica, e Carolyn Rodrigues Birkett, da Guiana.

Embora Lula mantenha o apoio à chilena, a primeira votação informal do Conselho de Segurança, realizada em julho, apontou Grynspan como favorita. O processo ocorre por meio de consultas confidenciais entre os 15 integrantes do órgão. Para chegar ao cargo, o candidato precisa obter apoio suficiente no Conselho e, sobretudo, não ser vetado por nenhum dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.

A estratégia brasileira, portanto, vai além da articulação regional. Lula chegou a defender Bachelet em conversa com o presidente russo, Vladimir Putin, enquanto o governo acompanha a posição de Washington, considerada particularmente relevante para o desfecho.

A disputa também se desenvolve em meio ao agravamento da relação entre Brasil e Argentina. Os ataques de Javier Milei a Lula contribuíram para o rebaixamento do nível diplomático entre os dois países.

Para o governo brasileiro, uma eventual derrota de Bachelet não representaria necessariamente um fracasso diplomático. O Planalto considera que o resultado dependerá sobretudo das negociações entre as grandes potências.

A escolha do próximo secretário-geral também dialoga com uma antiga crítica de Lula à estrutura da ONU. O presidente defende a reforma do Conselho de Segurança e maior representação de regiões como América Latina e África. A sucessão de Guterres, assim, tornou-se também uma disputa sobre os rumos e a representatividade do sistema multilateral.

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