
A relação das gestoras de recursos Reag Administradora de Recursos e Altinvest com o Primeiro Comando da Capital (PCC) vai além da administração de fundos de investimentos ligados à organização criminosa, segundo investigação do Ministério Público de São Paulo revelada pelo jornal O Estado de São Paulo. Os promotores afirmam que a Reag e alguns de seus sócios e diretores, bem como acionistas da Altinvest, têm participações em negócios ligados à facção.
Procuradas, ambas as empresas negaram as acusações. A Reag afirmou serem “infundadas as alegações que procuram associar sua atuação ou de seus diretores a práticas irregulares”. A Altinvest disse repudiar “veementemente qualquer tentativa de associar a empresa ou seus profissionais ao crime organizado” e que colabora de forma “ampla e irrestrita” com as autoridades.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), as gestoras e pessoas ligadas a elas criaram estruturas jurídicas e societárias que dificultaram a identificação dos verdadeiros donos de ativos pertencentes ao crime organizado. Ao assinarem como representantes em aquisições, os envolvidos teriam viabilizado juridicamente a entrada e saída de recursos ilícitos e participado da gestão operacional de empresas adquiridas com fundos que têm recursos “sem origem no sistema financeiro”.
A Reag tem presença estruturada em operações com usinas de açúcar e etanol controladas pela organização criminosa no interior paulista, segundo o Gaeco. A gestora e Walter Martins Ferreira III, sócio até junho, aparecem como representantes legais da Usina Itajobi, em Catanduva (SP). A propriedade foi comprada pelo fundo Mabruk II, gerido pela Reag e cujos recursos, segundo o MP, são de Mohamad Mourad, principal suspeito de lavagem de dinheiro do PCC.
Conhecido como “Primo”, Mourad é descrito como o “epicentro das operações” e montou a rede criminosa com familiares, sócios e profissionais cooptados. Ele e seu grupo são donos de negócios como usinas, distribuidoras de combustíveis, imóveis e terminal portuário. Mourad, que teve a prisão decretada, está foragido. Sua defesa nega qualquer prática ilícita.
Ramon Dantas, diretor executivo da Reag DTVM, aparece como representante da gestora em operações imobiliárias envolvendo empresas que receberam imóveis ligados à organização criminosa. Outro sócio, Silvano Gersztel, assina como representante do fundo Mabruk II no contrato de aquisição da Usina Itajobi. O Gaeco afirma que Dantas e Gersztel “atuaram em circunstâncias absolutamente imprescindíveis para a operacionalização dos fundos de investimento”.
Na Altinvest, Rogério Garcia Peres, sócio da empresa, participa do conselho de administração da Rede Sol Fuel, distribuidora de combustíveis com ligações ao grupo investigado, e é sócio de postos em Catanduva e Araçatuba com Valdemar de Bortoli Junior, acionista e presidente da Rede Sol. A Altinvest afirmou que Peres não opera postos de combustíveis e mantém apenas investimentos imobiliários.
Após a Operação Carbono Oculto, segundo apuração do O Estado de São Paulo, a Reag está articulando a devolução de escritórios de altíssimo padrão na região da Faria Lima, incluindo a sede no Edifício Bothanic, com aluguel estimado em R$ 1,8 milhão mensais, e andares no Plaza Iguatemi, prédio mais caro da cidade. A empresa trocou diretoria e conselho, passou por mudanças societárias e vendeu empresas na tentativa de estancar danos à reputação.