
A polarização política brasileira pode estar construindo uma distância entre lulistas e bolsonaristas maior do que aquela que existe na realidade. É o que aponta a segunda pesquisa da More in Common/Ipsos-Ipec sobre o chamado perception gap, ou “descompasso de percepção”, fenômeno que mede o quanto um grupo político erra ao imaginar as posições do campo adversário.
Divulgado no domingo (23), o levantamento ouviu 2.000 pessoas em 130 municípios, entre 6 e 10 de agosto. A pesquisa não mede intenção de voto. Para efeito da análise, foram considerados “lulistas” aqueles que declararam maior simpatia por Luiz Inácio Lula da Silva e “bolsonaristas” os que disseram preferir Flávio Bolsonaro. Os 18% que não manifestaram simpatia por nenhum dos dois ficaram fora da análise.
O resultado é revelador: os dois campos parecem menos distantes em temas importantes do que imaginam seus integrantes. Em praticamente todas as afirmações testadas, a diferença entre a posição real de um grupo e aquilo que o outro esperava encontrar ficou próxima de 20 pontos em uma escala de zero a 100.
Um dos exemplos mais expressivos envolve igualdade social. Os simpatizantes de Flávio Bolsonaro deram média de 86 pontos à afirmação de que é positivo que pessoas pobres possam viajar de avião e frequentar espaços antes restritos aos ricos. Os lulistas, porém, estimaram que os bolsonaristas dariam apenas 69.
A discrepância aumenta quando o assunto é igualdade salarial entre homens e mulheres. Os bolsonaristas chegaram a 94 pontos na defesa de que homens e mulheres recebam o mesmo salário pelo mesmo trabalho. A expectativa dos lulistas era de 73.
Também na defesa da democracia existe diferença, mas menor: os simpatizantes de Flávio marcaram 71 pontos para a afirmação de que nenhum presidente deveria poder fechar o Congresso e acabar com o regime democrático. Os lulistas estimaram 65.
O fenômeno funciona igualmente na direção contrária. Os lulistas deram 86 pontos à ideia de que ser pobre não é desculpa para cometer crimes, enquanto os bolsonaristas imaginavam uma média de apenas 67. Na defesa da autonomia financeira, os lulistas chegaram a 84 pontos na afirmação de que todos deveriam trabalhar para ter sua própria renda, contra uma expectativa bolsonarista de 65.
A maior surpresa talvez esteja na família: 95 pontos entre lulistas para a afirmação de que “a família é a base de tudo”, contra uma estimativa de apenas 72 feita pelos bolsonaristas.
O estudo encontra ainda um paradoxo importante: quanto maior a escolaridade, maior tende a ser o descompasso. Entre lulistas com ensino superior, a diferença chega a 33 pontos na questão da igualdade salarial e a 27 pontos na percepção sobre pobres viajarem de avião. Entre bolsonaristas com ensino superior, o descompasso chega a 27 pontos na valorização da família.
Para Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common, isso não significa simplesmente que pessoas mais escolarizadas desconheçam a política. Uma das hipóteses é justamente o contrário: elas podem conviver mais frequentemente com pessoas que compartilham suas posições, consumir meios de comunicação politicamente alinhados e construir modelos mais abstratos, e caricaturais, sobre o adversário.
É aí que a pesquisa encontra sua principal conclusão. A polarização não apenas separa posições políticas; ela também produz estereótipos sobre quem está do outro lado. E esses estereótipos podem ser mais resistentes do que as diferenças concretas.
O levantamento sugere, portanto, uma fotografia desconfortável para os dois campos: lulistas são mais conservadores e liberais em determinados temas do que os bolsonaristas imaginam, enquanto bolsonaristas são mais favoráveis à igualdade e à democracia do que os lulistas supõem.
Em uma eleição marcada novamente pela disputa entre os dois polos, a pesquisa oferece um dado que contraria a lógica do confronto permanente: os adversários talvez tenham mais pontos de convergência do que suas próprias bolhas políticas permitem enxergar.