pobreza
Unicef/Asad Zaidi

A escalada militar envolvendo o Irã e seus desdobramentos econômicos podem empurrar mais de 30 milhões de pessoas para a pobreza em todo o mundo e comprometer avanços recentes no desenvolvimento global, segundo análise divulgada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O alerta é feito em um momento de incerteza sobre a duração do conflito e seus efeitos estruturais sobre a economia internacional, com impactos que vão além do Oriente Médio e atingem principalmente países mais vulneráveis.

De acordo com o relatório, o cenário atual configura o que a ONU classifica como um “choque triplo”, resultado da combinação entre aumento dos preços de energia, pressão sobre cadeias globais de alimentos e desaceleração do crescimento econômico. Esse conjunto de fatores já começa a produzir efeitos sistêmicos e, mesmo com eventual cessar-fogo, tende a deixar marcas persistentes na economia global

A projeção mais crítica indica que até 32 milhões de pessoas podem cair abaixo da linha da pobreza, especialmente em países dependentes da importação de energia e alimentos, localizados na África, Ásia e pequenas economias insulares. A análise considera diferentes cenários de duração do conflito e aponta que, quanto mais prolongada a crise, maior será o impacto sobre populações que haviam conseguido sair da pobreza nos últimos anos

Segundo o administrador do PNUD, Alexander De Croo, o fenômeno representa uma inversão direta do desenvolvimento. Em declaração repercutida pela imprensa internacional, afirmou que conflitos dessa natureza funcionam como “desenvolvimento ao contrário”, ao empurrar novamente milhões de pessoas para condições de vulnerabilidade econômica

Impacto econômico já em curso e com efeitos globais

O conflito, que se intensificou nas últimas semanas após ataques militares envolvendo Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, provocou reações imediatas nos mercados globais, especialmente no setor energético. A interrupção parcial de fluxos estratégicos, como o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de petróleo do mundo, elevou preços e pressionou cadeias produtivas em escala internacional

O aumento do custo da energia tem efeito direto sobre a produção de alimentos, já que impacta fertilizantes, transporte e logística. A ONU alerta que esse movimento pode desencadear uma crise alimentar em países mais pobres, criando um efeito em cascata que amplia a insegurança alimentar e reduz o poder de compra das populações mais vulneráveis

Além disso, a desaceleração econômica global associada ao conflito tende a reduzir investimentos, afetar empregos e comprometer políticas públicas em países em desenvolvimento. Projeções anteriores da própria ONU já indicavam que a guerra poderia provocar perdas de até US$ 194 bilhões no produto interno bruto de países do Oriente Médio, com reflexos indiretos em outras regiões

Irã já enfrentava fragilidade estrutural antes da guerra

O impacto do conflito se soma a uma crise econômica pré-existente no Irã, marcada por inflação elevada, sanções internacionais e queda do poder de compra da população. Dados recentes indicam que o país já vinha registrando deterioração das condições de vida, com aumento da pobreza e dificuldades no acesso a bens essenciais

Simulações do PNUD apontam que a economia iraniana pode sofrer uma contração significativa, com queda expressiva no crescimento e aumento do número de pessoas abaixo da linha da pobreza, agravando um quadro já pressionado por anos de instabilidade econômica

Esse contexto interno fragilizado amplia os efeitos da guerra, tanto dentro do país quanto na região, ao reduzir a capacidade de resposta do Estado e aumentar a vulnerabilidade social

Efeito desigual e concentração nos países mais pobres

Embora o impacto seja global, o relatório destaca que os efeitos não serão distribuídos de forma homogênea. Cerca de metade do aumento projetado da pobreza deve se concentrar em países que dependem da importação de energia, onde a elevação de custos tende a ser mais intensa e rápida

Esses países, em geral, possuem menor capacidade fiscal para responder à crise, o que limita políticas de proteção social e amplia o risco de retrocessos no desenvolvimento humano. O PNUD alerta que populações que haviam recentemente superado a pobreza são as mais suscetíveis a retornar a esse patamar, o que compromete anos de avanços em indicadores sociais

Resposta internacional e risco de retração de ajuda

Diante desse cenário, a ONU defende uma resposta coordenada da comunidade internacional, com foco em medidas direcionadas às populações mais vulneráveis. Entre as propostas está a adoção de transferências de renda temporárias, consideradas mais eficientes do que subsídios amplos, com custo estimado em cerca de US$ 6 bilhões para mitigar os efeitos mais imediatos da crise

O relatório também chama atenção para um movimento contrário em curso: a redução de orçamentos de ajuda internacional por parte de países desenvolvidos, que têm redirecionado recursos para gastos domésticos e defesa, o que pode agravar ainda mais os efeitos da crise nos países mais pobres

Desenvolvimento sob risco estrutural

A avaliação do PNUD indica que o impacto do conflito não se limita ao curto prazo, mas pode comprometer trajetórias de desenvolvimento em diversas regiões do mundo. A combinação entre choques econômicos, instabilidade geopolítica e redução de cooperação internacional cria um ambiente de risco prolongado para países em desenvolvimento

Nesse contexto, o conflito com o Irã deixa de ser apenas um episódio regional e passa a representar um fator de desestabilização global, com efeitos diretos sobre pobreza, segurança alimentar e crescimento econômico

A ONU alerta que, mesmo diante de um eventual arrefecimento militar, os efeitos já desencadeados tendem a persistir, colocando em risco uma década de avanços no combate à pobreza e ampliando as desigualdades entre países.

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