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Vaticano/via AFP

O papa Leão XIV escolheu a inteligência artificial como eixo do primeiro grande documento político e teológico de seu pontificado e colocou o Vaticano no centro de um dos principais debates globais da atualidade. Divulgada nesta segunda-feira (25), a encíclica Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”) faz um alerta contundente sobre o avanço acelerado da IA, critica o poder concentrado nas gigantes de tecnologia e afirma que o mundo vive uma “corrida desordenada” capaz de produzir novas formas de desigualdade, exploração humana e violência automatizada.

Com mais de 40 mil palavras, o texto é tratado no Vaticano como uma tentativa de atualizar a doutrina social da Igreja para a era da inteligência artificial, da automação e da disputa tecnológica global. A publicação foi acompanhada por uma cerimônia oficial na Santa Sé com representantes da comunidade científica, especialistas em IA e autoridades internacionais. Entre os convidados estavam pesquisadores ligados à Anthropic, OpenAI e universidades europeias dedicadas à ética digital.

Ao longo da encíclica, Leão XIV argumenta que a humanidade entrou em uma nova fase histórica comparável à Revolução Industrial do século XIX. Segundo o papa, algoritmos, dados e sistemas automatizados passaram a concentrar um nível de poder econômico e político capaz de redefinir relações de trabalho, estruturas democráticas e até a própria percepção humana da realidade.

“O que está em jogo não é apenas uma inovação tecnológica, mas a própria concepção de humanidade”, afirma um dos trechos centrais do documento divulgado pelo Vaticano.

Papa afirma que IA está “fora do controle de poucas empresas”

Um dos pontos mais incisivos do texto é a crítica direta ao domínio exercido por um pequeno grupo de empresas privadas sobre o desenvolvimento da inteligência artificial global. Sem citar companhias nominalmente, o papa afirma que a humanidade corre o risco de entregar decisões fundamentais da vida econômica, social e política a estruturas empresariais sem controle democrático efetivo.

Segundo a encíclica, a atual corrida tecnológica está sendo guiada “pela lógica da velocidade, do lucro e da concentração de poder”, enquanto governos e organismos internacionais demonstram incapacidade de acompanhar a velocidade das transformações.

Leão XIV defende que a IA seja tratada como tema de governança internacional e sugere a criação de mecanismos globais de supervisão pública semelhantes aos modelos utilizados para armas nucleares, energia atômica e biotecnologia.

“O desenvolvimento tecnológico não pode ser monopolizado por poucos grupos econômicos enquanto bilhões de pessoas permanecem apenas como consumidores passivos de decisões tomadas em ambientes opacos”, afirma o texto.

O documento também critica a dependência crescente de governos em relação a grandes empresas de tecnologia, especialmente em áreas como segurança, vigilância, infraestrutura digital e sistemas militares.

Vaticano alerta para risco de guerras automatizadas

O tema militar ocupa parte significativa da encíclica. O papa afirma que a inteligência artificial aplicada a sistemas de defesa e armamentos cria uma ameaça inédita para a humanidade ao permitir decisões letais automatizadas fora do controle humano direto.

Leão XIV condena explicitamente armas autônomas e afirma que a automação da guerra pode levar a uma “desumanização irreversível dos conflitos”.

Segundo o texto, o uso crescente de IA em drones, reconhecimento facial, sistemas de vigilância e plataformas militares aumenta o risco de guerras permanentes conduzidas por algoritmos.

A preocupação reflete debates que já vinham crescendo na ONU e em centros de pesquisa internacionais sobre o avanço das chamadas “killer robots”, armas capazes de identificar e eliminar alvos sem intervenção humana direta. Relatórios recentes da Human Rights Watch e do Future of Life Institute alertam para uma corrida global envolvendo Estados Unidos, China e Rússia no desenvolvimento dessas tecnologias. Na encíclica, o papa afirma que a humanidade “não pode delegar à máquina o direito de decidir quem vive e quem morre”.

Encíclica conecta IA, trabalho precarizado e “novo colonialismo”

Outro eixo central do documento é a relação entre inteligência artificial e exploração econômica global. O papa afirma que o avanço da IA vem sendo sustentado por cadeias produtivas marcadas por trabalho precarizado, extração intensiva de recursos naturais e concentração tecnológica nos países mais ricos.

Leão XIV critica especialmente a mineração de lítio, cobalto e minerais raros utilizados em data centers, chips e infraestrutura digital. Segundo ele, comunidades pobres continuam sendo exploradas para sustentar um modelo tecnológico controlado por grandes potências econômicas.

A encíclica utiliza o termo “colonialismo digital” para definir a dependência tecnológica criada entre países periféricos e conglomerados internacionais de tecnologia.

Além disso, o documento afirma que milhões de trabalhadores invisíveis responsáveis por treinamento de algoritmos, moderação de conteúdo e manutenção de plataformas digitais enfrentam jornadas degradantes e baixa proteção trabalhista.

Pesquisas recentes de universidades americanas e europeias mostram que sistemas de IA generativa dependem fortemente de trabalhadores terceirizados em países africanos, asiáticos e latino-americanos responsáveis por filtrar conteúdos violentos e alimentar bancos de dados usados por empresas de tecnologia.

Pedido histórico de perdão pela escravidão marca documento

Além da inteligência artificial, a encíclica trouxe um dos gestos históricos mais significativos já feitos por um papa em relação à escravidão. Leão XIV reconheceu formalmente que setores da Igreja Católica contribuíram historicamente para legitimar sistemas escravistas e coloniais ao longo dos séculos. O pontífice pediu perdão institucional “pela lentidão e pelas omissões” da Igreja diante da escravidão.

“O papa sinceramente pede perdão pelo atraso com que a Igreja condenou o flagelo da escravidão”, afirma o texto oficial divulgado pelo Vaticano.

Segundo especialistas ouvidos pela Associated Press e pelo National Catholic Reporter, trata-se de uma das declarações mais diretas já feitas por um pontífice sobre o papel institucional da Igreja na legitimação histórica da escravidão durante os períodos colonial e imperial europeu.

O documento menciona explicitamente antigas bulas papais utilizadas por potências europeias para justificar escravização de povos africanos e indígenas durante a expansão colonial.

Vaticano busca novo papel político global

A encíclica também é interpretada como tentativa de reposicionar o Vaticano como ator político relevante diante das grandes transformações tecnológicas e geopolíticas do século XXI.

Leão XIV vem adotando postura mais assertiva do que seus antecessores em temas ligados a guerra, concentração econômica, tecnologia e desigualdade global. Desde sua eleição, o pontífice já havia criticado conflitos armados, nacionalismos radicais e o avanço de modelos econômicos baseados em hiperconcentração de riqueza.

Agora, ao transformar a inteligência artificial em tema central de sua primeira encíclica, o papa tenta colocar a Igreja Católica no centro de uma disputa internacional que envolve governos, empresas de tecnologia, centros militares e organismos multilaterais.

Analistas ouvidos pela Reuters e pelo The Guardian avaliam que o documento coloca o Vaticano em confronto indireto com parte do Vale do Silício e amplia a pressão internacional por modelos mais rígidos de regulação da IA.

Para Leão XIV, a principal questão deixada pela inteligência artificial não é tecnológica, mas política e moral: quem controla o futuro digital do planeta — e em benefício de quem esse poder será utilizado.

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