Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), se queixou diretamente a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da postura do ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), a quem acusa de tensionar o debate público e desgastar politicamente parlamentares diante da opinião pública. A reclamação, compartilhada por líderes do centrão, coloca em xeque a estratégia de comunicação do governo às vésperas de uma semana decisiva para a aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1.

Segundo relatos, Motta tratou do assunto com Lula na semana passada. O presidente da Câmara pediu que o chefe do Executivo conversasse com Boulos e alertou que a postura do ministro criava dificuldades na discussão da proposta. Lula teria ouvido em silêncio, sem responder. Motta também reforçou as críticas aos ministros José Guimarães (Relações Institucionais) e Luiz Marinho (Trabalho), além de parlamentares do PT, em reunião na noite de terça-feira. A apuração é do jornal O Globo.

A irritação da cúpula da Câmara tem como pano de fundo publicações recentes de Boulos nas redes sociais. Na semana passada, o ministro classificou de “desumano e covarde” uma emenda apresentada por 171 deputados que propunha transição de dez anos para o fim da escala 6×1. “171 deputados tiveram a coragem de propor que o trabalhador espere mais 10 anos como ‘transição’. Uma década! Pra cortar direitos nunca existiu ‘transição'”, escreveu Boulos. “O nosso governo é contra. O fim da escala 6×1 tem que ser para já.”

Líderes da Câmara reconhecem que Boulos tem respaldo de Lula para a disputa política, sobretudo em ano eleitoral. Avaliam, porém, que a postura é “fora do tom” e agita a militância contra congressistas em momento de tensionamento da relação do Planalto com a cúpula do Senado.

Aliados de Boulos minimizam as queixas. Afirmam que ele cumpre papel importante na disputa política e que críticas mútuas entre governo e Congresso são naturais.

A crise de comunicação, porém, não pode se estender. Nesta segunda-feira (25), Lula e Motta se reúnem para tentar desbloquear a PEC do fim da 6×1, uma das principais bandeiras eleitorais do governo. O encontro foi marcado a pedido do presidente.

O obstáculo central é o período de transição. As propostas em discussão apontam para prazos entre três e cinco anos. Uma ideia mais aceita prevê redução imediata de uma hora na jornada semanal de 44 horas, diminuindo uma hora adicional a cada 12 meses até atingir 40 horas. O governo, entretanto, quer insistir em transição mais rápida. Nos bastidores, fala-se em reduzir o prazo total para entre seis meses e um ano.

O plano de Motta é votar a PEC na comissão especial e no plenário da Câmara até quinta-feira (28). Para dividir os louros, uma ideia que circula é deixar que o Senado dê a palavra final encurtando ainda mais o período de transição.

Embora inicialmente resistente à mudança, Lula abraçou o fim da 6×1 como caminho para reverter a crise de popularidade que atinge seu governo. A articulação desta semana será um teste de fogo para a articulação política do governo.

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