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A oitava fase da Operação Compliance Zero aprofundou uma das frentes mais sensíveis do escândalo envolvendo o Banco Master e colocou definitivamente o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), no centro da investigação conduzida pela Polícia Federal. Relatórios enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) apontam que Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro mantinham uma relação política e pessoal próxima que teria sido decisiva para destravar investimentos bilionários do Rioprevidência em produtos financeiros ligados ao banco investigado.

A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça e resultou em buscas em endereços ligados a Castro no Rio de Janeiro e em Brasília. É a segunda vez em menos de quinze dias que o ex-governador se torna alvo direto da PF dentro da Compliance Zero, investigação que já apura suspeitas de fraude financeira, lavagem de dinheiro, corrupção, manipulação de fundos, obstrução da Justiça e uso de estruturas empresariais para movimentações consideradas irregulares.

Segundo a Polícia Federal, o Rioprevidência aplicou aproximadamente R$ 3,69 bilhões em estruturas financeiras vinculadas ao Banco Master entre 2023 e 2025. Os aportes ocorreram justamente no período em que a instituição financeira enfrentava crescente desconfiança no mercado e questionamentos regulatórios sobre sua exposição financeira e sustentabilidade operacional. Para os investigadores, a velocidade e o volume das aplicações chamaram atenção por terem ocorrido mesmo diante de alertas técnicos internos e recomendações contrárias de órgãos de controle.

PF vê “alteração estratégica” no comando do Rioprevidência

Um dos principais pontos da investigação envolve mudanças consideradas “estratégicas” na direção do Rioprevidência pouco antes da liberação dos investimentos bilionários. Segundo a PF, houve uma reorganização interna cuidadosamente alinhada para posicionar dirigentes favoráveis às operações em cargos decisórios do fundo previdenciário estadual, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores públicos do Rio de Janeiro.

Os investigadores afirmam que as mudanças facilitaram o “credenciamento célere” do Banco Master junto ao Rioprevidência e permitiram aplicações feitas “sem análise técnica estruturada”, em desacordo com normas prudenciais, políticas internas de investimento e parâmetros mínimos de governança financeira exigidos para fundos públicos.

A decisão do STF cita nominalmente Deivis Marcon Antunes, diretor-presidente do Rioprevidência; Eucherio Lerner Rodrigues, diretor de Investimentos; Pedro Pinheiro Guerra Leal, gerente de Investimentos e Operações; e Fernanda Pereira da Silva Machado, responsável pelo Controle Interno e Auditoria.

De acordo com o relatório da PF, esses dirigentes teriam atuado “em desconformidade com a política de investimentos, com a legislação de regência e com os deveres fiduciários mínimos de prudência, diligência e motivação técnica”, permitindo operações consideradas incompatíveis com a natureza previdenciária dos recursos administrados pelo fundo.

Bilhões foram aplicados apesar de alertas do TCE e pareceres técnicos

A investigação aponta ainda que os investimentos continuaram mesmo após alertas formais emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), pareceres técnicos desfavoráveis e restrições regulatórias envolvendo o Banco Master.

Segundo os documentos analisados pela PF, o Rioprevidência direcionou inicialmente cerca de R$ 970 milhões para Letras Financeiras do Banco Master entre outubro de 2023 e julho de 2024. Posteriormente, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, outros R$ 2,01 bilhões foram direcionados para fundos estruturados ligados ao mesmo grupo econômico.

Para os investigadores, esses fundos passaram a ser utilizados como mecanismo para “contornar restrições regulatórias” surgidas após os primeiros aportes. A suspeita é de que estruturas financeiras complexas tenham sido usadas para ampliar artificialmente a exposição do Rioprevidência ao conglomerado de Vorcaro mesmo diante do agravamento da situação do banco.

A PF sustenta que os investimentos colocaram recursos previdenciários estaduais em operações de risco elevado e potencialmente incompatíveis com o perfil de segurança exigido para fundos públicos voltados ao pagamento de aposentadorias.

Na decisão que autorizou a operação, André Mendonça afirmou existir um “robusto conjunto de elementos” indicando que as decisões não foram motivadas por critérios técnicos regulares, mas por uma “relação pessoal e indevida” entre Daniel Vorcaro e autoridades com poder de influência sobre o Rioprevidência.

PF aponta encontros privados, viagens e despesas financiadas por Vorcaro

A investigação também detalha uma relação considerada incomum entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro, que ultrapassaria o ambiente institucional.

Mensagens encontradas no celular do banqueiro indicariam que determinados investimentos dependiam de “alinhamento político” com o então governador fluminense. A PF afirma ter identificado “sincronismo” entre encontros privados de Castro e Vorcaro e os investimentos subsequentes realizados pelo Rioprevidência.

Segundo os investigadores, a aproximação envolvia reuniões frequentes, rearranjos administrativos dentro do fundo previdenciário e interlocução política permanente relacionada às operações financeiras.

Uma reportagem de O Globo revelou ainda que a PF identificou viagens internacionais, eventos e despesas custeadas por Vorcaro para pessoas ligadas ao núcleo político de Castro. A investigação aponta que a relação entre os dois “não se limitava a contatos institucionais” e envolvia proximidade pessoal contínua.

Esses elementos passaram a reforçar a linha investigativa de que decisões financeiras estratégicas envolvendo bilhões de reais podem ter sido influenciadas por relações políticas e interesses privados.

Banco Master se tornou epicentro de uma crise política nacional

O caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação financeira e passou a atingir diferentes núcleos de poder político no país.

Além do eixo envolvendo o Rioprevidência e o governo fluminense, o escândalo ganhou dimensão nacional após revelações sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Áudios divulgados pelo Intercept Brasil mostraram o senador Flávio Bolsonaro cobrando Daniel Vorcaro sobre aportes milionários para o projeto cinematográfico, que agora também passou a ser alvo de investigações relacionadas a possível propaganda eleitoral antecipada, caixa paralelo e financiamento político irregular.

Com isso, a Operação Compliance Zero passou a atravessar fundos previdenciários, bancos, empresários, governos estaduais e o núcleo central do bolsonarismo.

Operação aprofunda desgaste político de Cláudio Castro

Nos bastidores políticos do Rio de Janeiro, o avanço das investigações produziu forte impacto sobre o futuro político de Cláudio Castro.

Segundo reportagem do Estadão, setores do bolsonarismo passaram a tratar o ex-governador como “carta fora do baralho” para futuras articulações eleitorais após a nova ofensiva da PF.

Aliados avaliam reservadamente que o caso Banco Master compromete a viabilidade política de Castro e amplia riscos para estruturas políticas associadas ao PL fluminense e ao campo conservador no estado.

A defesa do ex-governador afirmou que Castro acompanhou as buscas “com serenidade” e sugeriu possível motivação política na operação, embora tenha reconhecido não possuir elementos concretos para sustentar formalmente essa hipótese.

Enquanto isso, a Polícia Federal segue aprofundando o rastreamento das conexões financeiras, políticas e empresariais ligadas ao Banco Master em uma investigação que já atinge recursos públicos bilionários, fundos previdenciários e setores centrais da política nacional.

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