Foto: Reprodução/Redes Sociais

A campanha de reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) vive um dilema que resume a complexidade da política brasileira: como manter uma aliança formal com Flávio Bolsonaro (PL) sem ser arrastado pela rejeição que consome o presidenciável. Oficialmente coordenador da campanha de Flávio em São Paulo, o governador tem operado uma distância calculada, oferecendo apoio protocolar ao filho mais velho de Jair Bolsonaro, mas estabelecendo limites claros para que a associação não comprometa seu próprio projeto eleitoral.

Os números explicam o receio. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril, 38% dos paulistas afirmaram que não votariam de jeito nenhum em Tarcísio. No caso de Flávio, o índice de rejeição salta para 53%. A diferença de 15 pontos percentuais é um abismo que a equipe de Tarcísio não pretende diminuir. Reservadamente, aliados do governador admitem que a campanha à reeleição será centrada no legado da gestão e nas propostas para um novo mandato, com o cuidado de não deixar que a imagem de Flávio se sobreponha à dele.

A estratégia já é explorada pelo adversário. O pré-candidato do PT, Fernando Haddad, trabalha para “colar” as imagens dos dois, tentando transferir parte da rejeição do senador para o governador. A aposta petista não é aleatória: a mesma pesquisa Genial/Quaest mostra que 47% dos paulistas preferem um governador independente, não aliado nem a Lula nem a Bolsonaro. Para Haddad, há espaço para aumentar a rejeição de Tarcísio — e, neste ano, o cálculo pode ser antecipado. Com Tarcísio liderando com 46% das intenções de voto e Haddad com 30%, segundo o Datafolha, a eleição pode ser decidida já no primeiro turno, já que os outros sete pré-candidatos pertencem a siglas de menor expressão.

O desgaste de Flávio, porém, não parou de crescer. Nacionalmente, sua rejeição subiu de 52% em abril para 56% em junho, segundo o Quaest, e esse resultado nem sequer capturou os efeitos das declarações da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre o enteado. Quando o envolvimento de Flávio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro veio à tona, Tarcísio respondeu com frieza a jornalistas: havia “muitas questões que ele mesmo precisa explicar”. Dias depois, na Marcha para Jesus, os dois dividiram o trio elétrico e o palco, mas o governador não publicou em suas redes sociais fotos ou vídeos ao lado do presidenciável.

Flávio aposta no capital político de Tarcísio

A aliança, no entanto, não pode ser rompida. Tarcísio precisa do eleitorado bolsonarista para se reeleger, e Flávio precisa de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. É aí que a dicotomia se revela: enquanto Tarcísio se afasta para se proteger, a campanha de Flávio aposta justamente no “efeito Tarcísio” para impulsionar suas chances no estado.

Integrantes da pré-campanha de Flávio avaliam que a propaganda na televisão e a vinculação entre os candidatos ao Senado André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) às imagens de Flávio e Tarcísio serão fatores decisivos para reverter a liderança de Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) na disputa pelo Senado. No Datafolha, Marina tem 18% das intenções de voto e Simone, 16%, contra 11% de André do Prado e 10% de Derrite. A aposta é que o capital político de Flávio e Tarcísio ainda não foi totalmente transferido para os candidatos ao Senado e que, à medida que a campanha avance, a identificação entre o eleitor conservador e os postulantes apoiados pelo governador se fortalecerá.

A campanha de Flávio também conta com uma suposta divisão do campo adversário. Aliados do senador avaliam que Marina e Simone tendem a disputar parcelas semelhantes do eleitorado — mulheres, moderados e parte do centro político —, o que pode gerar uma competição interna que limite o crescimento das duas. A orientação, portanto, é evitar transformá-las em adversárias prioritárias e concentrar o discurso na associação entre André do Prado, Derrite, Flávio e Tarcísio.

O paradoxo está posto: Tarcísio precisa de Flávio para manter a base bolsonarista, mas não pode se aproximar demais para não ser contaminado pela rejeição. Flávio precisa de Tarcísio para vencer em São Paulo, mas a cada crise que enfrenta, empurra o governador para a distância. A agenda mais recente com a presença de ambos ocorreu no dia 23 em Presidente Prudente, onde Tarcísio agradeceu a presença de Flávio e o chamou de “próximo presidente da República” — um discurso de palanque que contrasta com o silêncio nas redes sociais.

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