
O dia 9 de julho de 2025 marcou um ponto de inflexão na relação comercial entre o Brasil e os Estados Unidos. Há um ano, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou a imposição de uma tarifa de 50% sobre todas as importações brasileiras, alegando “retificar graves injustiças do atual regime”. A decisão, no entanto, carregava uma carga política evidente: entre justificativas econômicas, Trump citou o ex-presidente Jair Bolsonaro, o julgamento dos atos de 8 de janeiro e acusou o Supremo Tribunal Federal de emitir “centenas de ordens de censura secretas e ilegais” a plataformas de mídias sociais norte-americanas.
Quando entrou em vigor, em agosto, o tarifaço surpreendeu ao poupar 44,6% da pauta exportadora brasileira. Itens estratégicos como petróleo, suco de laranja, aviões, celulose e partes aeronáuticas ficaram com alíquota reduzida de 10%, considerados de difícil substituição e com potencial inflacionário para a economia dos EUA. A medida refletia a estratégia de Trump de usar tarifas como ferramenta central de política externa, prometida desde a campanha eleitoral para fortalecer a produção doméstica e reduzir o déficit comercial, que chegou a US$ 918,4 bilhões em 2024.
A tensão escalou rapidamente. O filho de Bolsonaro, Eduardo, que estava nos EUA articulando apoio à direita estrangeira, atribuiu as sanções às ações do ministro Alexandre de Moraes. O governo Lula, por sua vez, adotou discurso de soberania nacional, o que coincidiu com uma recuperação de popularidade do petista ao antagonizar com Washington. Por trás dos panos, porém, a estratégia era diferente: o vice-presidente Geraldo Alckmin liderou uma “separação entre Igreja e Estado”, buscando despolitizar as negociações e enfatizar argumentos técnicos. O setor privado brasileiro teve até acesso à Casa Branca, como no caso do empresário Joesley Batista.
A virada começou de forma inesperada. Em setembro de 2025, durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, Lula e Trump se cruzaram nos corredores. O encontro casual rendeu um abraço e uma conversa de vinte segundos que descongelou o diálogo. “Tivemos uma química excelente”, afirmou Trump. Dali em diante, os líderes trocaram telefonemas e realizaram reuniões presenciais, ampliando a pauta para o combate ao crime organizado.
Em novembro, Trump recuou parcialmente. No dia 14, derrubou as tarifas recíprocas de abril para produtos agrícolas, diante dos reflexos inflacionários nos supermercados norte-americanos. Seis dias depois, eliminou a tarifa extra de 40% sobre carne bovina, café, frutas e petróleo, com validade retroativa. Mais de 200 produtos brasileiros foram beneficiados, segundo o Itamaraty.
A maré virou definitivamente em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que Trump violara a lei federal ao impor tarifas unilateralmente, derrubando o tarifaço global. As exportações brasileiras para o país voltaram a crescer. Em maio, Lula e Trump se reuniram em Washington, onde o republicano chamou o petista de “presidente dinâmico”. A pauta incluiu minerais críticos e cooperação contra o crime organizado.
Apesar do aparente descongelamento, a situação permanece indefinida. O Departamento de Estado classificou o Comando Vermelho e o PCC como “terroristas globais”, contrariando a proposta brasileira de combate integrado. Um documento sobre minerais críticos errou o nome do Brasil, tratando-o como “país X” e “Equador”, sinalizando desinteresse em parcerias. E o governo Trump tenta retomar as sanções: em junho, o USTR propôs novas tarifas de 25% sobre todas as importações brasileiras, baseado na Seção 301 da Lei de Comércio, alegando insegurança jurídica em áreas como comércio digital, patentes, etanol e desmatamento.
Nesta semana, o setor privado brasileiro desembarcou em Washington para audiências do USTR. Representantes do agronegócio e da indústria adotaram tom técnico, defendendo a complementaridade entre as economias e a longa tradição comercial. Há expectativa de que a lista de isenções seja ampliada, embora ninguém descarte a aplicação parcial de alíquotas.
A decisão final do USTR está prevista para 15 de julho. Um ano após o anúncio que abalou as relações bilaterais, o Brasil segue entre o alívio parcial e a ameaça persistente de um novo capítulo do protecionismo trumpista.