
O Brasil entrou no centro da corrida global pelas terras raras, conjunto de 17 elementos químicos considerados estratégicos para setores como tecnologia, energia renovável, indústria automotiva e defesa. Com a segunda maior reserva conhecida do mundo, o país tem atraído uma quantidade crescente de empresas estrangeiras interessadas em explorar essas riquezas.
Levantamento da Repórter Brasil e da Associated Press mostra que, dos 2.727 requerimentos de exploração registrados pela Agência Nacional de Mineração até junho deste ano, 86% foram apresentados desde 2023. Quase metade deles está ligada a empresas sediadas no exterior ou a subsidiárias estrangeiras. Austrália, Estados Unidos e Canadá concentram boa parte dos interesses.
O movimento ganhou força depois que a China, líder mundial na extração, processamento e fabricação de produtos derivados das terras raras, restringiu exportações para os Estados Unidos em meio à disputa comercial com o governo Donald Trump. A resposta americana foi ampliar investimentos no Brasil, inclusive com recursos públicos. A aquisição da Serra Verde, única produtora comercial brasileira, por uma empresa americana com participação do governo dos EUA é o exemplo mais emblemático.
A disputa, porém, vai além da exploração das jazidas. O Brasil busca evitar que sua riqueza mineral seja apenas fonte de matéria-prima para outros países. O governo defende investimentos que tragam processamento, tecnologia, pesquisa e empregos qualificados ao território nacional.
Ao mesmo tempo, a expansão da mineração cria uma frente de preocupação ambiental e social. Segundo o levantamento, um quarto dos requerimentos está sobreposto ou localizado a até dez quilômetros de unidades de conservação ou territórios de comunidades tradicionais. Povos indígenas e quilombolas temem impactos sobre rios, nascentes, fauna e modos de vida.
O desafio brasileiro, portanto, é transformar a abundância mineral em desenvolvimento sem repetir um modelo baseado apenas na exportação de recursos naturais. No cenário de crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, as terras raras podem representar uma oportunidade econômica extraordinária, mas também um teste para a capacidade do país de proteger seu território e negociar seu patrimônio estratégico.