Israel
Itamar Ben-Gvir/no X

A divulgação de imagens de ativistas humanitários ajoelhados, com as mãos amarradas e cercados por forças israelenses abriu uma nova crise diplomática para o governo de Israel nesta quarta-feira (20). O vídeo foi publicado pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, uma das figuras mais radicais do atual gabinete israelense, após a interceptação de uma flotilha internacional que tentava chegar à Faixa de Gaza com ajuda humanitária.

As embarcações faziam parte da chamada “Global Sumud Flotilla”, uma missão organizada por ativistas, parlamentares, médicos e organizações internacionais que buscavam romper o bloqueio marítimo imposto por Israel à Faixa de Gaza desde 2007. Segundo autoridades israelenses e grupos envolvidos na ação, mais de 400 ativistas de cerca de 40 países foram detidos após a interceptação em águas internacionais, no Mediterrâneo.

Imagens provocaram reação internacional

O vídeo divulgado por Ben-Gvir mostra dezenas de ativistas ajoelhados no porto de Ashdod, com lacres plásticos prendendo os braços para trás enquanto agentes israelenses circulam ao redor. Em alguns momentos, o ministro aparece provocando os detidos e segurando uma bandeira israelense diante deles. Segundo o jornal britânico The Guardian, uma mulher pode ser ouvida gritando ao fundo enquanto os detidos permanecem alinhados no chão. Já o jornal israelense Haaretz descreveu a gravação como uma “humilhação pública deliberada”.

A repercussão foi imediata e atingiu até aliados históricos de Israel. Itália, Irlanda, Espanha, Canadá e Coreia do Sul convocaram representantes diplomáticos israelenses para prestar esclarecimentos. O primeiro-ministro canadense Mark Carney classificou o tratamento dado aos ativistas como “abominável”. O governo italiano chamou as imagens de “inaceitáveis”, enquanto o chanceler irlandês afirmou estar “chocado” com a cena.

A crise também expôs divisões internas no próprio governo israelense. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu criticou publicamente a divulgação do vídeo e afirmou que a atitude de Ben-Gvir “não está alinhada aos valores e normas de Israel”. Netanyahu também determinou que os ativistas fossem deportados “o mais rápido possível”. O ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, acusou Ben-Gvir de causar danos à imagem internacional do país em um momento de crescente isolamento diplomático.

Bloqueio de Gaza volta ao centro da pressão internacional

O episódio acontece em meio ao aumento da pressão internacional sobre Israel após meses de denúncias sobre a situação humanitária em Gaza. Mesmo após o cessar-fogo firmado em outubro de 2025 entre Israel e Hamas, organismos internacionais continuam apontando escassez de alimentos, medicamentos e combustível no território palestino. Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram a libertação imediata dos ativistas e afirmaram que as detenções podem violar normas internacionais relacionadas à navegação civil e aos direitos humanos.

Israel sustenta há anos que o bloqueio marítimo é necessário para impedir o envio de armas ao Hamas e a outros grupos armados palestinos. Organizações humanitárias, por outro lado, afirmam que a restrição coletiva agravou a crise humanitária na Faixa de Gaza e ampliou a dependência da população civil de ajuda internacional.

A flotilha interceptada nesta semana é uma continuação de ações semelhantes realizadas nos últimos anos para desafiar o bloqueio naval israelense. O precedente mais conhecido ocorreu em 2010, quando forças israelenses interceptaram a embarcação Mavi Marmara, operação que terminou com mortos e provocou uma das maiores crises diplomáticas da história recente entre Israel e Turquia.

Ben-Gvir amplia desgaste dentro e fora de Israel

A figura de Itamar Ben-Gvir ajuda a explicar a dimensão da crise. Líder da extrema direita israelense e defensor de medidas duras contra palestinos, o ministro acumula episódios de confrontos diplomáticos e críticas de organizações de direitos humanos. Nas últimas semanas, jornais israelenses como Haaretz e The Times of Israel passaram a registrar desconforto crescente dentro do establishment israelense com a atuação pública do ministro, especialmente em temas ligados à segurança e ao tratamento de palestinos e ativistas internacionais.

Analistas ouvidos por veículos internacionais apontam que o episódio pode aprofundar o isolamento diplomático de Israel justamente em um momento em que o governo tenta reconstruir relações com países europeus e reduzir a pressão sobre a condução da guerra em Gaza. Para setores da oposição israelense, a divulgação das imagens fortalece críticas de que integrantes do governo Netanyahu têm adotado posturas que ampliam tensões externas e fragilizam a imagem internacional do país.

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