Um tópico muito atual é o debate sobre a questão de gênero e as pautas identitárias. Mas, para além disso, podemos estender a discussão para três pontos diferentes: sexo, gênero e a divisão entre masculino e feminino. O que os diferencia? Até que ponto avançamos no entendimento desses conceitos?
De meados do século XIX para cá muito se debateu sobre o que seria “ser homem” ou “ser mulher” e, graças ao trabalho contundente de feministas como Simone de Beauvoir, criou-se um entendimento de que essa dicotomia binária é muito mais fruto de uma produção sócio-histórica do que realmente uma ligação direta e fixa a uma herança biológica. O que se entendia por “homem” na Grécia antiga ou no Brasil atual não são a mesma coisa. Todos aqueles predicados que sempre foram atribuídos ao fato de se ter nascido com pênis ou vagina foram caindo por terra. As questões identitárias ganharam força e aos poucos foi sendo colocado na mesa que uma pessoa pode, sim, nascer biologicamente de um sexo, mas identificar-se com outro.
Aqui cabem vários parênteses. Um deles refere-se ao fato de que isso não é totalmente aceito ainda por boa parte da população. Apesar de todo o desenvolvimento do tema, as pessoas trans ainda são tabu e o estabelecimento de uma sociedade que integre perfeitamente todos os gêneros possíveis ainda é algo a ser alcançado.
No entanto o último ponto, da separação entre masculino e feminino, ainda é o mais delicado e controverso. É comum escutarmos, inclusive entre representantes dos direitos LGBTQIA+, falas como “fulano nasceu homem, mas sempre se considerou super feminino”. Mas daí fica a pergunta: o que seria esse tal “feminino”? O que podemos listar como características inquestionavelmente femininas? Gostar de usar saia? Ser mais “sensível”? Ser delicada? Gostar de homens cis? Não é difícil perceber que todas essas coisas estão intimamente ligadas à cultura. Desde o nascimento aprendemos que certos comportamentos são louváveis para as mulheres e outros para os homens. Mas isso não precisaria ser assim. Um homem cis poderia muito bem ser ensinado a gostar de saias, assim como ser estimulado a se tornar mais sensível e, do mesmo modo, uma mulher poderia aprender desde seus primeiros anos que a melhor característica para seu sexo é agressividade e a força.
Quando recheamos isso tudo com a questão de gênero a coisa fica ainda mais embolada. Uma pessoa pode nascer biologicamente homem, ser sensível, gostar de saias e vestidos, adorar programas de celebridades e fazer as unhas e, ainda sim, querer somente se relacionar sexualmente com mulheres. O que ela seria então? Mais masculina ou feminina? A resposta é difícil justamente porque não traçamos um conceito claro do que marcaria essa tal divisão, justamente porque ela é cultural e histórica, não biológica.
Judith Butler, em seu livro Gender Trouble, desenvolve a tese de que não há uma essência masculina ou feminina inata. O que acreditamos poder diferenciar entre esses dois termos é, na verdade, resultado do que simbolicamente nos foi passado sobre o que cada um desses dois conceitos carrega consigo. Você aprende que ser delicado é uma característica feminina e ser bruto é uma masculina e, daí para a frente, passará a ajudar a reproduzir essa “verdade”.
O psicanalista Jacques Lacan tem uma forma interessante de pensar o assunto. Para ele homem e mulher são “significantes”, ou seja, imagens sonoras que trazem consigo um significado que não é fixo. O que é uma mulher para um homem japonês, cis, de 70 anos, pode ser muito diferente da conceituação que uma mulher dinamarquesa, trans, de 19 anos, faz de si mesma. Tudo depende da experiência individual de cada um, sempre em contato com uma cultura e o período histórico em que a pessoa está inserida.
É verdade que a psicanálise não abandonou o conceito de masculino e feminino, até porque existem várias psicanálises. Mas, dependendo da matriz teórica que se segue, essa conceituação é colocada num lugar mais interessante do que no de uso comum. Para o citado Lacan, por exemplo, esses dois termos são posições, que podem ser ocupados tanto por pessoas que nasceram fisiologicamente homens ou mulheres. Ou seja, tem a ver com “atividade” e “passividade” e posições de gozo (aí precisaríamos adentrar no tortuoso terreno do que é gozo para Lacan).
Talvez a insistência em continuar a usar os termos “masculino” e “feminino” tem toda uma justificativa. Mas, será que se justifica mesmo? Talvez seja uma resistência que temos em abandonar certas doutrinas que nos foram passadas desde que nascemos. Parece que, por mais que a sociedade avance, ainda é difícil deixar para trás toda essa carga que levamos desde tempos imemoriais. Quem sabe no futuro vamos conseguir entender que masculino e feminino não são características biológicas ou psíquicas com bordas definidas eternamente, seja para pessoas cis ou trans, mas sim algo resultante do que escutamos, assistimos e acreditamos, desde o berço.