A ação da Polícia Federal e a decisão do ministro Flávio Dino de bloquear quase 120 milhões de reais em emendas parlamentares ligadas a Valdemar Costa Neto são um dos passos mais decisivos para o Brasil se livrar do inescrupuloso Orçamento Secreto criado por Bolsonaro e os partidos do Centrão.
É da farra das emendas que a gente está falando. Por anos, o Orçamento Secreto se estabeleceu como um arranjo de falcatruas protegido pelo decoro parlamentar. A fronteira entre o legal e o criminoso parecia difícil de distinguir, investigar e punir. Agora, a história começa a mudar. Bastou a Polícia Federal apreender um celular, durante a Operação Transparência, para vir à tona a influência de Valdemar Costa Neto na definição de dezenas de emendas de deputados do PL. E não só. A triangulação entre Valdemar e assessores que trabalham na Câmara mostra que eles operavam como organização criminosa.
Presidente do PL bolsonarista há décadas, Valdemar assumia a postura de ‘capo’, o chefão. Uma espécie de maestro do Orçamento Secreto. E fazia isso sem ter mandato. Porque faz tempo que algumas raposas da velha política entenderam que não precisam ser eleitos pelo povo para ter e exercer o poder.
O PL, de Bolsonaro, é um bom exemplo da dinâmica que fez o Centrão se estabelecer, crescer e dominar o Congresso Nacional. Controlar o partido, como faz Valdemar, significa controlar o fundo partidário e, sobretudo, o fundo eleitoral. E aí estamos falando de cifras que chegam ao bilhão de reais. Dinheiro abundante que dá a ele a prerrogativa de eleger como deputado quem ele quiser. Os escolhidos, no entanto, têm alguns preços a pagar. Um deles é a lealdade eterna. Outro, como se comprovou agora graças à PF e ao STF, é se comportar como parlamentares laranjas. O acordo é simples: “o mandato é seu, mas as emendas a gente divide”. E com isso a roda da fortuna do Centrão roda ainda mais potente e irrigada com dinheiro público.
O primeiro passo para desmontar o castelo de falcatruas do Orçamento Secreto foi dado, mas devemos torcer para ele ser só o primeiro. A lógica que vale para o PL também se aplica a outros partidos, sobretudo do Centrão, que só respeitam a ideologia do dinheiro. Valdemar é capo, mas não é o único. Ciro Nogueira, Antônio Rueda e outros comungam dos mesmos valores morais. E, possivelmente, das mesmas cifras e suspeitas. O Orçamento Secreto só será página virada quando a casa cair para todos eles.