A CazéTV não é a única emissora, mas está no centro do debate sobre o abuso da publicidade das Bets na cobertura da Copa do Mundo. A razão é simples: os sites de apostas deixaram de ser meros patrocinadores e o que se vê é uma simbiose da CazéTV com KTO, BET365 e BetNacional na transmissão dos jogos e em toda a programação. ODDs quase em tempo real e um temporal de apelos e incentivos para que qualquer um pegue o celular e passe a apostar naquele minuto.
Simbiose que resulta numa equação bilionária, de ganha-ganha, para Bets e emissora, que, infelizmente, lava as mãos e se esquiva da responsabilidade diante de mais de 35 milhões de pessoas que seguem o streaming só no YouTube. Mais que a oferta de uma audiência com milhões de usuários, a CazéTV vendeu para as Bets a alma do jornalismo. Colocou as estrelas da casa como garotos propaganda que endossam o caminho fácil das apostas como o mapa do tesouro. “Entra lá, é fácil e rápido”, dizem os locutores. “Se o Luizinho e o Nardini estão falando e eu gosto tanto de ver jogos com eles, eu vou lá ver se dá certo. Por que não?”, pensam – e agem – alguns milhares de torcedores fiéis.
A tentativa de reparação e controle de danos que a CazéTV fez só mostra o tamanho do problema – ou da insensibilidade, se preferirem. Casimiro Miguel conseguiu, na curta e quase lacônica explicação que deu sobre a simbiose com as Bets, ir da imagem de um cara descolado, boa praça e que revolucionou o jeito de transmitir esportes no Brasil para incorporar a figura do empresário calculista e que minimiza o mal que sua atitude traz para a sociedade. “Sem Bets, o negócio não vira”, disse. “A galera pode se incomodar de na tela, mas prejudicou o quê?”, completou, usando a típica postura de quem não vai mudar de opinião exceto se isso custar muito dinheiro pra ele.
É preciso falar o português claro. KTO é Pitu. BetNacional é Velho Barreiro. Tigrinho é Corote. As Bets se tornaram o novo álcool e o resultado dessa Copa do Mundo, fora dos gramados, é que milhares de pessoas vão mergulhar no vício das apostas, se afundar em dívidas e, sem exagero, podem perder o pouco que tem na esperança de uma ODD melzinho na chupeta que a CazéTV colocou no ar. Não enxergar isso como realidade é irresponsabilidade consciente.
Casimiro vai além: deixa no ar a ameaça de que não terá novas grandes transmissões na CazéTV sem o apoio das Bets. Algo como, “se pegarem muito no meu pé, não tem mais jogo. Quem vai perder são vocês”. Pobre Cazé, ele está de mãos atadas. Não tem saída. Nem parece a mesma pessoa, que junto com outros dois sócios, criou o modelo de negócio que bateu de frente com a Rede Globo e conquistou os direitos de transmissão no digital junto à FIFA.
Os números deste modelo de negócio desmentem o Cazé que diz não ver outro caminho. A transmissão da Copa rendeu 2 bilhões de reais em patrocínio, receita que é dividida com o YouTube. A LiveMode, empresa que detém a CazéTV, negociou onze cotas no valor de R$ 185 milhões de reais cada. As Bets ficaram com quatro, quase 40% dos 2 bi de faturamento. Todas as cotas foram vendidas em 20 dias. Será mesmo que o negócio não viraria sem o dinheiro das Bets? Alguém acredita que outras marcas ou até governos não se interessariam por investir no canal e alcançar milhões de espectadores durante os 104 jogos da Copa do Mundo?
A nota pública da CazéTV a respeito da polêmica diz que a emissora “nasceu para fazer diferente”. Concordo, nasceu. Mas agora parece crescer se importar para o mal que faz e o efeito colateral do próprio crescimento. Criadores de um modelo de negócio que mudou a cobertura esportiva, Casimiro e seus sócios são influenciadores e têm responsabilidades, quase igual aos ídolos que estão dentro de campo.
Enquanto muitos craques, brasileiros e estrangeiros, surfam a onda das Bets para faturar milhões vendendo suas imagens para os sites de apostas, o craque Mbappé, da França, fez o caminho oposto: recusou qualquer contrato de marketing com as Bets e foi à público dizer que as apostas geram vícios e destroem vidas. “Muitos de nós viemos de bairros onde estas coisas destruíram muita gente. Eu mesmo conheço pessoas que sofreram”, disse o craque francês, consciente de quanto o seu sucesso influencia a vida de gente que sonha em mudar de vida. Pela Seleção Brasileira, o lateral Danilo também fez movimento parecido, se manifestando publicamente contra as Bets e aderindo à campanha “Block do Tigrinho”. Estão aí dois nomes que o Cazé poderia elogiar dentro, mas também fora de campo. E ter como inspiração na hora de negociar as cotas de patrocínio para os grandes eventos esportivos que teremos pela frente.