Todo ano, quando saem as indicações ao Emmy, repete-se um clichê: “não houve grandes surpresas”. Em 2026, porém, essa impressão parece especialmente verdadeira. Em um momento em que a televisão produz uma quantidade sem precedentes de séries de alto nível e em que novas plataformas vêm consolidando identidades criativas muito próprias, a Academia de Televisão optou por um caminho seguro, privilegiando produções já consagradas e nomes tradicionais em detrimento de descobertas mais ousadas.
Não que os principais indicados sejam injustificáveis. “The Pitt” lidera a corrida entre os dramas por méritos evidentes. É uma das melhores produções do ano e representa um retorno vigoroso ao drama hospitalar clássico. Da mesma forma, “Hacks” continua demonstrando uma consistência impressionante em sua quinta temporada, mantendo um nível de excelência raro para uma série tão longeva.
Ainda assim, é inevitável questionar se o Emmy não se acomodou novamente em seus próprios hábitos.
Com o volume de séries produzidas atualmente, seria desejável que a Academia aproveitasse sua visibilidade para ampliar o alcance de obras menos conhecidas, mas igualmente qualificadas. O prêmio não serve apenas para reconhecer excelência; ele também ajuda a construir relevância cultural, direcionando o olhar do público para produções que poderiam passar despercebidas. Quando a maior parte das indicações se concentra sempre nas mesmas séries, perde-se justamente essa capacidade de descoberta.
Isso não significa que a lista seja completamente previsível. Há alguns lampejos de originalidade que merecem ser destacados.
Um dos exemplos mais interessantes é a indicação da segunda temporada de “Seus Amigos e Vizinhos” na categoria de Melhor Série Dramática. Embora tenha sido a única lembrança da produção, sua presença demonstra que ainda existe algum espaço para surpresas em categorias tradicionalmente dominadas pelas mesmas obras.
Outro destaque é a indicação de Chase Infiniti como Melhor Atriz em Série Dramática por “Os Testamentos”. Trata-se de um reconhecimento importante para uma atriz em ascensão e que foge um pouco da tendência da Academia de privilegiar sempre os mesmos nomes. Em compensação, Zendaya, que já venceu duas vezes, está lá pela decepcionante terceira temporada de “Euphoria”.
São escolhas que dão algum frescor a uma relação de indicados que, no conjunto, permanece bastante conservadora.
O Emmy também continua cultivando certos vícios históricos.
Um deles é a aparente necessidade de manter representantes da televisão aberta (nos EUA) entre as principais categorias, ainda que existam produções claramente superiores no streaming. Séries como “Abbott Elementary”, entre as comédias, e “Paradise”, entre os dramas, acabam ocupando espaços que poderiam servir para ampliar o espectro de reconhecimento da premiação.
Não se trata de desmerecer essas produções. Ambas são competentes dentro de suas propostas. A questão é que dificilmente figuram entre o que houve de mais inventivo ou marcante na temporada televisiva.
Outro exagero aparece nas categorias de atuação.
“The Pitt” é, sem dúvida, uma excelente série, mas ver cinco atores coadjuvantes da mesma produção disputando o Emmy parece mais um sintoma da força política de determinadas campanhas do que propriamente um retrato da diversidade interpretativa do ano. Ao concentrar tantas vagas em um único elenco, a Academia inevitavelmente deixa de reconhecer performances igualmente relevantes vindas de outras séries.
Ao mesmo tempo, algumas trajetórias individuais chamam atenção.
Jason Bateman, um velho conhecido do Emmy desde os tempos de “Ozark” e “Arrested Development”, voltou a demonstrar sua enorme versatilidade ao conquistar quatro indicações. Além de concorrer como ator em série limitada por “Black Rabbit”, da Netflix, também foi lembrado como ator coadjuvante em minissérie por “DTF St. Louis” e ainda recebeu indicações como diretor e produtor por essas produções. É um reconhecimento raro, reservado a artistas que conseguem transitar com igual competência entre diferentes funções criativas.
Outro momento curioso da premiação envolve as irmãs Fanning.
Dakota Fanning recebeu indicação como atriz coadjuvante pela minissérie “All the Fault”, enquanto Elle Fanning foi lembrada como Melhor Atriz em Comédia por “Margot Está em Apuros”. A produção da Apple, aliás, conquistou oito indicações e consolidou-se como uma das grandes comédias da temporada.
No caso de Elle Fanning, o feito ganha uma dimensão ainda maior. Ao ser indicada ao Oscar, por “Valor Sentimental”, e ao Emmy na mesma temporada, a atriz reafirma seu momento excepcional na carreira. São reconhecimentos que extrapolam o talento individual e evidenciam sua crescente presença no centro da produção audiovisual contemporânea.
O triunfo da Apple
Mas talvez a principal história contada pelas indicações deste ano esteja menos nas séries individualmente e mais na disputa entre as plataformas.
A HBO continua sendo a grande referência da indústria. Com 122 indicações, mantém uma consistência impressionante e demonstra que sua marca de qualidade permanece praticamente intacta. Produções como “The Pitt”, “Hacks”, “DTF St. Louis” e “O Cavaleiro dos Sete Reinos” sustentam essa liderança.
A novidade está na Apple.
Durante anos repetiu-se que o Apple TV+ era “a nova HBO”. Em 2026, essa percepção começa finalmente a aparecer de forma concreta na principal premiação da televisão.
Com 89 indicações — um recorde para a plataforma —, a Apple emplacou uma quantidade impressionante de séries entre as principais categorias. “Margot Está em Apuros”, “Pluribus”, “Seus Amigos e Vizinhos”, “Palm Royale”, “Slow Horses” e “Widow’s Bay”, esta última com expressivas 19 indicações, demonstram que o estúdio deixou de depender de sucessos isolados para construir um catálogo reconhecido de maneira consistente pela indústria.
Enquanto isso, a Netflix vive uma situação curiosa.
Embora ainda acumule 111 indicações no total, sua presença entre as categorias mais prestigiadas já não é tão dominante quanto foi em anos anteriores. A plataforma continua produzindo em enorme escala, mas parece perder espaço justamente nas disputas que mais ajudam a consolidar prestígio artístico.
Talvez este seja um dos movimentos mais interessantes revelados pelo Emmy de 2026. A HBO continua sendo a grande grife da televisão, mas a Apple deixou de ser apenas uma promessa para se tornar uma competidora efetiva pelo protagonismo criativo da indústria.