Eu vou ao escritório todos os domingos. Não é por falta de ambiente em casa nem por trabalhar além da conta. Mas é de lá que saio, com raquete e bolinhas, para jogar na quadra ao lado do prédio. Jogo tênis e quase todos os esportes com raquete. “Olha lá a esquerda caviar”, alguns vão dizer. Pouco importo. A coluna de hoje não é para falar sobre esportes nem dos meus fins de semana. E, sim, para falar de Raquel.
Em quase todas as manhãs de domingo, é ela quem está na portaria. Ela e seu filho de doze anos. É a única mulher na equipe de porteiros, que se revezam para cobrir as 24 horas, sete dias por semana.
Raquel é funcionária antiga. Está no mesmo emprego há quase 15 anos. Lembro dela ainda grávida, cumprindo sua jornada atrás do balcão da recepção. O que quer dizer que, por mais de uma década, seus fins de semana são sempre assim. Raquel não tem direito aos domingos. Só um por mês. E, com o tempo, seu filho, que passou a acompanhá-la quase sempre, também não.
A história dela é muito parecida com a realidade de centenas de milhares de mulheres que trabalham na escala 6×1 e precisam se desdobrar entre o emprego, os afazeres domésticos e a criação dos filhos. Para muitas, também há a tarefa extra de cuidar de algum familiar idoso. O que nos leva a uma pergunta muito séria: que tempo sobra para cuidar de si mesma?
Levar o filho para o trabalho costuma ser uma necessidade e não uma escolha. Creches e escolas não funcionam aos sábados e domingos. Muitas são mãe-solo, moram longe da família ou dividem a vida com alguém que também trabalha nos fins de semana. Outras levam como único recurso à mão para garantir a segurança dos filhos, física e mental. Quando a rotina no trabalho permite, como é o caso de Raquel, também é o jeito que resta para passar mais tempo com a criança.
Raquel merece ter mais folgas aos domingos. Para que possa simplesmente descansar e, sobretudo, ter o poder de escolha sobre o que fazer com seu filho no fim de semana. “Seria ótimo. Mudaria a minha vida”, ela diz. “Seria um sonho”.
Ter os fins de semana livres para fazer o que tiver vontade não deveria ser um sonho, mas um direito. O fim da escala 6×1 é o caminho para que Raquel não passe a próxima década só folgando um domingo por mês. É o futuro dela e de outros milhões de brasileiros que está em jogo. O debate sobre a mudança na jornada de trabalho tem de ser visto sob esta perspectiva. É o ângulo que importa.
Os argumentos do mercado financeiro e do empresariado, que alegam que os custos trabalhistas e de produção irão subir e “quebrar a economia”, são uma grita que já ouvimos no passado. Foi assim quando se criou a CLT. O Brasil não quebrou e a economia cresceu. Uma ladainha fatalista que é recorrente sempre que o 0,1% mais rico sente qualquer cheiro de ameaça. Jogam com o medo e, nos bastidores, investem milhões reais em lobbies para manter a realidade que convém a eles.
A história promete – e merece – mudar em 2026. Na briga de Davi contra Golias, Raquel e os milhões de brasileiros que trabalham em regime 6×1 agora têm o presidente Lula como aliado. Embora seja um reivindicação antiga dos trabalhadores organizados, a redução de jornada nunca havia sido uma bandeira prioritária do governo federal, mesmo nas gestões petistas anteriores.
O debate sobre o fim da escala 6×1 não é uma particularidade só brasileira. Vários países, especialmente europeus, vem testando a redução na jornada de trabalho, sem redução de salários. E os resultados são positivos, com aumento da produtividade e impacto concreto no crescimento econômico. Experiências que estão referendadas em estudos da OCDE, que apontam que não o volume de horas que define a eficiência, mas a qualidade do tempo trabalhado.
Mas há quem caminhe na direção oposta, infelizmente. Na contramão da História, a Argentina de Javier Milei está promovendo uma reforma trabalhista que amplia a jornada de trabalho para 12 horas, além de reduzir indenizações por demissão, limitar o direito de greve e basicamente acabar com o direito de férias. O pacote do governo argentino de ultradireita é uma espécie de Lei Áurea às avessas sob o argumento de este ser o caminho para criar mais empregos formais e fortalecer a economia. A reforma já foi aprovada na Câmara de Deputados, em Buenos Aires. Só a pressão popular e dos trabalhadores organizados pode reverter o estrago por lá.
Para sorte de Raquel, ela não nasceu nem trabalha na Argentina. Na terra de Milei, seu sonho de descansar aos domingos estaria ainda mais distante. Para ela e seu filho de 12 anos. Na terra de Lula, os fins de semana prometem ganhar um novo significado, com cheiro de almoço de domingo em casa ou de manhãs para passear no parque, jogar bola e andar de bicicleta.