Em entrevista à Folha de S. Paulo, o deputado Marcos Pereira, presidente do Republicanos, assumiu a face mais sincera de que como o 0,1% mais rico da população enxerga o pobre e a pobreza no Brasil. Para justificar porque ele acredita que o Brasil não está preparado para o fim da escala 6×1, ele disse que “o ócio demais faz mal” e que o pobre não usaria o tempo livre para o lazer. “Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar. Pode ser o contrário. Ao invés de lazer, pode ser o mal”.
O surrealismo da visão preconceituosa do parlamentar vai além. “Mas a população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente”, ele argumenta. “Qual o lazer do pobre numa comunidade? Ou num sertão lá no Nordeste?”. Trocando em miúdos, o pobre só serve para trabalhar. Quase duzentos anos depois, as convicções de Marcos Pereira são basicamente as mesmas dos senhores de engenho e dos barões do café na época da escravidão.
É bem provável que o presidente do Republicanos nunca tenha ido a uma comunidade no fim de semana para conhecer a alegria e a vida pulsante que existe nas periferias. Bem factível também que ele não conheça iniciativas culturais e esportivas que são o lazer de milhões de brasileiros que vivem em comunidades.
O líder do partido de Tarcísio de Freitas também ignora o direito que os trabalhadores têm de passar mais tempo com suas famílias. Como é o caso de Raquel, que trabalha na portaria de um prédio comercial há 14 anos, só tem uma folga por domingo e muitas vezes leva o filho para o trabalho para ter mais tempo ao lado dele.
De certa maneira, é reconfortante ver um parlamentar, em ano eleitoral, assumir tão claramente como ele subestima e desvaloriza o pobre e seu papel na sociedade. Faz cair a máscara da visão de mundo que estará em debate na tramitação do fim da escala 6×1 e, também, nas eleições de outubro. O sincericídio de Marcos Pereira ajuda a mostrar quem tá do lado do povo e quem não está.
Ele diz que levou tais argumentos ao presidente da Câmara, Hugo Motta, na tentativa de demovê-lo da ideia de avançar na discussão. Incluiu, ainda, a sua profunda preocupação com o chororô dos empresários, que dizem que o fim da escala 6×1 traria impactos negativos para a economia brasileira.
Mas deu a letra, como raposa política que é, de como pretende votar. “Às vezes até tem que votar (favorável) por conta de ser ano eleitoral. Porque o eleitor pode não entender bem se você votar contra, por exemplo”. Está aí um parlamentar honesto em suas palavras.