Donald Trump é um presidente inconsequente, mas se engana quem pensa que ele só age por impulso, ego e vaidade. Tem tudo isso, mas não só. Dois meses depois de sequestrar Nicolas Maduro e intervir na Venezuela, ele atacou e matou o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, abrindo guerra contra os iranianos e incendiando, mais uma vez, o Oriente Médio. Tudo ao arrepio de qualquer alinhamento com outras grandes economias europeias (com exceção de Israel, seu puxadinho ideológico) ou dos organismos multilaterais que se estruturaram depois da Segunda Guerra Mundial. A depender de Trump e sua nova estratégia de segurança nacional, a enfraquecida OTAN agora cairá de vez em desuso e o prédio da ONU, em Manhattan, logo mais terá uma plaquinha de “vende-se” ou “aluga-se”.
Mas o que está por trás dos atos de guerra de Trump? Onde isso vai parar? Como o Brasil fica diante desta nova realidade internacional e da truculência norte-americana?
Como já vem sendo dito em muitas reportagens e análises, o que está em jogo – e, sim, isto é um divisor de águas para a História e a geopolítica mundial – é sua queda-de-braço com os chineses pela hegemonia das próximas décadas. Suplantados pela China durante as últimas décadas do livre mercado e economia globalizada, os Estados Unidos reagem pelas armas e uma política externa ostensiva que retoma a velha Doutrina Monroe, do Século 19, da “América para os americanos”. O que Trump está fazendo é substituir o neoliberalismo pelo neocolonialismo. E isto é uma mudança superlativa com impactos concretos na vida de todos nós. Se a mão invisível do capitalismo vem se mostrando insuficiente, ele faz valer a força dos mísseis e de seu poderio militar.
É sempre bom lembrar que foram os governos norte-americanos, ainda em plena Guerra Fria, que expandiram o modelo neoliberal. Empatados em armas com a União Soviética, a dominação econômica nos mercados internacionais se deu pela raiz mais liberal do capitalismo. O economista Milton Friedman e a Escola de Chicago usaram vários países, como os casos do Chile e do próprio Brasil, como laboratório e caminho para ganhar escala global. Modelo que perdurou por décadas exatamente por servir à hegemonia norte-americana. Tudo ia bem para eles até a China, em sua trajetória própria de um estado forte e economia de mercado, embaralhar o jogo e deixar os Estados Unidos em segundo plano. O livre mercado e o estado mínimo já não têm respostas que contentam a Casa Branca e boa parte da população por lá. E isso já faz um certo tempo.
Mais que verbalizar tal descontentamento, Trump age na construção de políticas protecionistas e em táticas de boicote à trajetória chinesa. A primeira via tentada foi o tarifaço, que se mostrou insuficiente. A segunda, que vivemos agora, são as armas e as guerras. Caminho que foi desenhado e comunicado, no final do ano passado, a partir da nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos. Um documento de pouco mais de 30 páginas que diz o que eles querem e quais as desculpas que vão usar ao declarar guerra ou intervir num país soberano. Donald Trump é transparente e cristalino em seus objetivos – o que também mostra o tamanho de sua prepotência.
O primeiro ponto a ser refletido é que os Estados Unidos associam diretamente sua hegemonia econômica à sua segurança nacional. E dizem que querem impedir que potências externas (podiam ter dito “China”, simplesmente) obtenham controle de “ativos considerados vitais”. Traduzindo, trata-se do acesso ao petróleo e sua logística de escoamento e, também, o controle das reservas de minerais raros, indispensáveis para a indústria de alta tecnologia. O documento acrescenta que a estratégia, agora, é promover a “paz por meio da força” e destaca a “predisposição à não-intervenção”, exceto se isso comprometer interesses norte-americanos. Traduzindo de novo, a exceção será a regra. Alguém duvida? No mesmo documento, Trump desdenha dos países europeus, dizendo que a região vive seu declínio econômico e populacional, passando por um processo de “apagamento civilizacional”. É seu jeito de dizer que a OTAN e os demais organismos multilaterais não o impedirão de agir. “Faço por que eu posso,” como escrevi logo após o ataque à Venezuela.
O combate ao narcoterrorismo – neologismo com assinatura de Trump – surge como uma das motivações para o uso da força. Aqui, claramente, deparamos com a primeira desculpa, como vimos no caso da Venezuela. O sequestro de Nicolas Maduro não tinha o objetivo de restaurar as bases democráticas no país, mas, sim, o controle da produção e das reservas venezuelanas de petróleo. Trump assumiu o que queria, abertamente, em suas entrevistas sobre a ação em Caracas.
Agora, com o Irã, o roteiro se repete. Não por acaso, a razão é o petróleo. Venezuela e Irã são dois grandes fornecedores de petróleo para a China, ficando atrás apenas da Arábia Saudita e da Rússia. A China importava 80% do petróleo produzido pelos iranianos. O cenário se complica porque o Irã também controla (e agora fechou) o Estreito de Ormuz por onde escoava os barris da Arábia Saudita que iam para os chineses. Metade dos 11 milhões de barris diários consumidos pelos chineses passam por Ormuz. O regime de Khamenei estava no caminho. Trump o matou. Talvez este seja o melhor retrato da nova regra disfarçada, aquela que diz só intervir e usar a força quando alguém ameaçar interesses norte-americanos.
A nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, requentando as premissas da Doutrina Monroe, também tem efeitos diretos e indiretos no Brasil. O imediato, que já começamos a sentir, é o impacto no preço do petróleo. Mas isso é o de menos. A diretriz trumpista trata a América Latina como terreno cativo dos Estados Unidos, o que autogarante liberdade para intervir em terras estrangeiras, sejam ditaduras como a de Maduro ou democracias consolidadas, como a nossa. A desculpa do combate ao narcoterrorismo está na manga para ser usada a qualquer momento. Seja na Colômbia, como ele já ensaiou, no México e sua recente instabilidade social, ou no Brasil de minerais raros, PCC e Comando Vermelho. Donald Trump é uma ameaça real ao futuro. Abre uma porteira que outros mandatários da Casa Branca poderão usar sem constrangimento, especialmente se os Republicanos continuarem no poder.
Por outro lado, ainda há a janela para que o Brasil coloque em prática políticas públicas de fortalecimento e proteção à nossa economia e soberania, o que torna a eleição deste ano ainda mais decisiva. O presidente Lula vem demonstrando consciência do momento que vivemos e usa os meios democráticos com maestria. A reversão do tarifaço de Trump é um exemplo. Avançar na proteção dos minerais de terras raras e na soberania digital são alguns dos desafios que temos pela frente.
Os três primeiros meses de vigência da nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos já mudaram a mesa do jogo. Trump avançou no tabuleiro de WAR até onde seu poderio militar permitia ir até aqui. A América Latina é “meu quintal”, a Europa vive seu “apagão civilizatório” e o Oriente Médio não tem por onde fugir. É só jogar bombas e matar, não importa se civis e crianças se acumulem como vítimas. A princípio, hoje, as fronteiras do juízo trumpista seguem sendo a Rússia e a própria China. O problema é que Trump não tem juízo e sua inconsequência pode custar caro para todos nós.