
A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar a chamada trend “caso ela diga não”, que vinha circulando nas redes sociais com vídeos em que usuários simulavam reações violentas a mulheres diante de uma negativa em situações românticas. Os conteúdos mostravam encenações de agressão, como socos em objetos, movimentos de luta e até gestos com faca, acompanhados da frase “treinando caso ela diga não”.
Perfis associados à divulgação da trend foram derrubados nesta segunda-feira (9). A PF agora investiga se os conteúdos podem configurar crimes como incitação à violência, apologia à violência contra mulheres ou ameaça.
Os vídeos começaram a circular nas últimas semanas em diferentes plataformas digitais e rapidamente ganharam visibilidade. Em muitos casos, os conteúdos seguiam um mesmo roteiro: um homem simulava um pedido de namoro ou casamento e, diante de uma suposta negativa, reagia com gestos agressivos ou ameaçadores.
As encenações incluíam socos em paredes, movimentos de luta e, em alguns casos, a exibição de objetos cortantes, sempre acompanhadas da legenda que sugeria estar “treinando” para reagir a um eventual “não”. A repercussão do conteúdo levou parlamentares a cobrar providências das autoridades e provocou reação de organizações que atuam no combate à violência de gênero.
A deputada Duda Salabert (PDT-MG) afirmou que os vídeos não podem ser tratados como humor ou entretenimento.
“Não é brincadeira, não é meme, não é trend. É incitação à violência contra mulheres”, declarou a parlamentar. Segundo ela, o caso foi encaminhado ao Ministério Público para investigação de possíveis crimes relacionados à disseminação dos conteúdos.
Salabert argumenta que a circulação de vídeos desse tipo contribui para normalizar comportamentos agressivos e reforçar padrões culturais que minimizam a violência contra mulheres.
O deputado Pedro Campos (PSB-PE) também solicitou que a Procuradoria-Geral da República acompanhe o caso e avalie a responsabilização criminal dos responsáveis pelos conteúdos.
Investigação e responsabilidade nas redes
A Polícia Federal deverá analisar agora quem produziu e disseminou os vídeos e se há indícios de organização ou incentivo coletivo na circulação da trend. Investigadores também avaliam se o conteúdo pode ser enquadrado em crimes previstos na legislação brasileira relacionados à incitação à violência e à ameaça.
A análise inclui a identificação dos perfis responsáveis pela produção original dos vídeos e das contas que amplificaram a circulação do material nas redes sociais.
O caso reacende o debate sobre a responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos que possam estimular violência ou ameaças.
Nos últimos anos, autoridades brasileiras têm ampliado a pressão sobre empresas de tecnologia para remover conteúdos considerados ilegais ou que incentivem crimes.
Debate sobre violência de gênero
A repercussão da trend ocorre em um contexto de preocupação crescente com a violência contra mulheres no Brasil.
Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registra centenas de casos de feminicídio por ano e milhares de ocorrências de violência doméstica e sexual.
Especialistas apontam que conteúdos que tratam agressões contra mulheres como brincadeira ou entretenimento podem contribuir para naturalizar comportamentos violentos.
Organizações da sociedade civil e parlamentares têm defendido maior fiscalização sobre conteúdos que circulam nas redes sociais e que possam incentivar agressões ou ameaças.
A investigação da Polícia Federal deverá agora reunir provas sobre a origem da trend, identificar responsáveis e avaliar se a produção e disseminação dos vídeos podem resultar em responsabilização criminal.