O cacique do PSD, Gilberto Kassab, é um apostador nato da política brasileira, sempre operando à meia luz como fiel da balança da governabilidade do Planalto, não importa o titular. Desde sempre, o PSD sempre foi uma banca de apostas com registro no Tribunal Superior Eleitoral. O KassabBet.
Nas últimas eleições, no entanto, com o acirramento da polarização entre o lulismo o e bolsonarismo, Kassab vinha encontrando dificuldades para encontrar uma raia confortável e fazer aquilo que ele faz de melhor: esticar a corda para negociar apoio político. Em outras palavras, construir dificuldade eleitoral para valorizar o passe do PSD e, com isso, construir bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado.
Para este ano, diante do quase vácuo que se criou no campo bolsonarista antes da consolidação do nome de Flávio Bolsonaro, o KassabBet mudou sua estratégia, lançando três pré-candidatos à Presidência da República, e dando sinais de que agora é pra valer. Três governadores que expressam trajetórias e perfis diferentes, indo da centro-direita palatável à extrema direita raiz. A desistência de Ratinho Jr., do Paraná, facilitou sua decisão: entre Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, a aposta no segundo era mais que evidente.
Kassab sabe que Caiado não vai para o segundo turno nem vai ganhar as eleições. Mas ele tem trunfos que são preocupantes. Não repetirá o vexame de Soraia Thronicke ou de Padre Kelman, em 2022. Mas o cálculo do cacique do PSD é que ele possa assumir, agora, o papel que Simone Tebet fez quatro anos atrás: ser o fiel da balança.
O perigo mora aí. Diferentemente de Tebet, que no segundo turno de 2022 subiu no palanque de Lula, o governador de Goiás é um nome bolsonarista. Servirá como linha acessória da candidatura de Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições e tem alinhamento natural para o segundo turno. Caiado é uma terceira via fake por essência.
Enquanto Tebet carregava, quatro anos atrás, uma certa áurea de renovação da política do Centro-Oeste, Ronaldo Caiado é o retrato da velha política fisiológica da região dominada pelo agronegócio e que é a mais bolsonarista do país.
O governador de Goiás também preocupa porque ele venderá, como o PSD já anunciou, a imagem do gestor. Isso não ganha eleição presidencial no Brasil atualmente, mas é saída confortável para quem não quer votar, de primeira, no Bolsonaro da vez e sua relação com rachadinhas, milicianos e outros esqueletos no armário.
Mais que gestor, Caiado será vendido pelo marketing político como o governador que resolveu a segurança em Goiás. Se fez lá, pode fazer pelo Brasil inteiro. Sua candidatura, portanto, dá ênfase e reforça o tema da segurança pública como central na disputa de outubro. A direita terá cardápio para escolher: enquanto Flávio Bolsonaro rasga a fantasia de patriota e defende a tese de possível intervenção militar dos EUA para combater o narcoterrorismo (leia-se, o PCC e CV), Caiado será a solução caseira de quem tem respostas e resultados práticos. Um discurso que tem altíssima ressonância em várias regiões do país, com destaque para São Paulo.
Na semana passada, eu ouvi de um pequeno empresário de São Paulo a seguinte frase, enquanto Caiado era entrevistado pela Jovem Pan. “Se ele sair, tem o meu voto porque a gente precisa fazer aqui o que ele tá fazendo em Goiás”, ele disse. “Goiana é uma cidade segura. Todo taxista diz isso”. O KassabBet não dá ponto sem nó. A aposta dessa vez é construir um reservatório de votos que desague em Flávio Bolsonaro no segundo turno, além de dificultar que a polarização excessiva decida a eleição, a favor de Lula, já no primeiro domingo das eleições. É bom lembrar que a candidatura de Caiado ainda não é uma realidade. O PSD pode rifar seu nome antes de julho. Seria o melhor para a democracia. O que Kassab está fazendo, hoje, é apostar (contra) o futuro do Brasil. Seu jogo político pode custar caro para todos nós.