A nova rodada de pesquisas eleitorais feitas em abril sobre confirmou duas tendências do quadro eleitoral que vêm se desenhando em 2026: primeiro, a polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) está consolidada, com o fortalecimento do filho do ex-presidente Bolsonaro deixando a chamada terceira via sem espaço; segundo, a avaliação do governo estagnada em meio a um mal estar geral das pessoas.
A consolidação da polarização é particularmente importante porque esta rodada de abril é a primeira com o fechamento da janela partidária e dos prazos de desincompatibilização. Com isso, temos a constituição de um quadro de candidatos mais bem definido, embora alguma mudança ainda possa ocorrer, sobretudo com a desistência de pré-candidatos. Agora está confirmado que os sonhos da Faria Lima não caíram no cando da sereia do mercado: o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Rep), não renunciou e será candidato à reeleição e o governador do Paraná, Ratinho Jr (PSD), abriu mão de um voo nacional pelo risco de perder seu estado para o ex-juiz Sérgio Moro, que se filou ao PL e será o candidato ao governo paranaense do bolsonarismo.
A polarização consolidada se expressa com força tanto na pergunta espontânea (na qual a pessoa entrevistada não vê o quadro de candidatos) quanto na estimulada (momento em que o entrevistador apresenta o quadro de candidatos).
Na espontânea, no Datafolha divulgado em 11 de abril, Lula tem 26%, contra 16% de Flávio Bolsonaro e 2% de Jair Bolsonaro. Na CNT/MDA divulgada em 14 de abril, Lula aparece com 28,7%, contra 16,6% de Flávio Bolsonaro e 3,4% de Jair Bolsonaro. Na Quaest divulgada em 15 de abril, Lula marca 19%, Flávio Bolsonaro 13% e Jair Bolsonaro 1%. Os demais candidatos somam 5% na Quaest, 3% na CNT/MDA e 5% no Datafolha. Apenas este ultimo instituto Ronaldo Caiado (PSD), é destacado, com 2%.
Na estimulada, no Datafolha Lula tem 39% contra 35% de Flávio Bolsonaro, 5% de Ronaldo Caiado, 4% de Romeu Zema (Novo) e 2% de Renan Santos (Missão). Na CNT/MDA Lula marca 39,2%, Flávio Bolsonaro 30,2%, Ronaldo Caiado 4,6%, Romeu Zema 3,3% e Renan Santos 1,8%. Na Quaest, Lula aparece com 37%, Flávio Bolsonaro com 32%, Ronaldo Caiado com 6%, Romeu Zema com 3% e Renan Santos com 2%.
O baixo índice de intenção de votos dos “outros” na espontânea e na estimulada é uma confirmação de que não haverá espaço para alternativas a Lula e Bolsonaro. Além disso, a ausência de um ou mais concorrentes na faixa de 5% reforça a hipótese da eleição ser resolvida diretamente no 1º turno. Hoje, Caidado e Zema estão nesse patamar, mas os dois não terão muito tempo de TV nem palanques fortes nos estados e provavelmente vão murchar diante de um voto útil do eleitor da direita em direção à Flávio Bolsonaro.
A segunda tendência que vem apresentando resiliência é a estagnação da avaliação do governo Lula após o bom momento apresentado no 2º semestre de 2025. Recapitulando, a aprovação do presidente Lula melhorou consideravelmente no ano passado a partir de alguns enfrentamentos, especialmente contra Trump e o tarifaço e em favor da taxação dos super ricos. Em setembro de 2025, Lula tinha 33% de aprovação no Datafolha, índice que agora está em 29%. Já na Quaest, Lula viu sua avaliação subir 8% entre maio e dezembro de 2025, saltando de 40% para 48%. Em janeiro de 2026 se inicia uma tendência de queda, com 47%, número que caiu para 43% agora em abril.
O debate político tem girado nas explicações para essa queda e possíveis ações para reversão deste quadro. O diagnóstico em geral se concentra na questão econômica – inflação dos alimentos em particular, mas o custo de vida como um todo – e no tema da segurança pública. Além disso, as análises na mídia empresarial buscam cristalizar uma ideia de que o governo não tem marca, não tem o que mostrar e que o que foi feito até aqui (incluindo a isenção do IR) não surtiu efeitos.
Para além dessas hipóteses, todas elas válidas, há a dimensão da disputa política. O fato é que Flávio Bolsonaro passou os primeiros três meses de 2026 jogando sozinho, sem ser criticado e sem precisar se posicionar sobre nenhum tema. Em paralelo, o presidente Lula seguiu enfrentando os desafios de governo, o que incluiu ter que lidar com os efeitos da guerra do Irã, algo que não estava previsto, só o que fez sem a mesma energia mobilizadora do segundo semestre de 2025.
A desmobilização da base da esquerda no começo de 2026 já era esperada. Este período é marcado pelas festas de natal e ano novo, férias e carnaval. Além disso, seria impossível manter o campo progressista mobilizado direto até outubro de 2026, o que transforma à pausa do começo de ano em uma oportunidade de recarregar as baterias.
O problema foi ter deixado Flavio Bolsonaro totalmente à vontade, sem trazer para o debate público nem o passado dele, nem as opiniões sobre os conflitos do presente. Por exemplo, ele praticamente não precisou se explicar sobre as relações do seu pai com Vorcaro, sendo que o cunhado do banqueiro preso – o pastor Fabiano Zetel, também preso – é um dos maiores doadores de campanha do ex-presidente Bolsonaro.
Outro exemplo é a jornada 6 x 1, pauta apoiada por 70% do eleitorado. Seu partido, o PL, vem travando a tramitação do tema no Congresso. Seu pai, em 2024, disse ser contrário à redução da jornada de trabalho. E ele, mesmo sendo candidato a presidente, não deu uma declaração sequer sobre o tema.
Felizmente, em abril, as forças democráticas voltaram a se mobilizar. O fim da escala 6 x 1 levou milhares de pessoas às ruas em várias capitais, com destaque para São Paulo. O governo Lula enviou um projeto próprio em regime de urgência para acelerar a tramitação. Diante da crítica de congressistas que acusaram o governo de atropelar o parlamento, o ministro Boulos reafirmou que o fim da escala 6 x 1 será votado ainda esse ano e que o governo vai mobilizar a sociedade para isso.
É a mobilização em favor deste e de outros temas que apontam para o futuro – pacto contra o feminicídio, soberania nacional, tarifa zero, regulação do trabalho dos app, controle das big techs e mais taxação dos super ricos para financiar os direitos do povo – que vai levar Lula à vitória nas urnas em 2026 e, depois, que vai sustentar um governo que consolide a democracia e os direitos do povo.