O grande tema político da semana talvez seja, de forma até certo ponto surpreendente, o que é ser jornalista.
É uma pergunta pertinente. Em tempos de pós-verdade, desinformação, hiperinformação e de um progressivo empobrecimento do jornalismo enquanto campo de conhecimento e prática social, discutir os limites, as responsabilidades e os critérios da profissão é não apenas legítimo, mas necessário. O problema é que a pergunta, desta vez, não parece partir do lugar adequado.
Ela não nasce de uma inflexão da própria sociedade, de uma reflexão da imprensa sobre seus métodos ou de uma transformação tecnológica que imponha a necessidade de repensar o jornalismo. Ela nasce de um Supremo Tribunal Federal (STF) acuado, de uma Corte que, nos últimos anos, vem sendo alvo de questionamentos sobre o extrapolamento de suas atribuições constitucionais e que agora se dispõe a rever a exigibilidade do diploma de jornalista para o exercício da profissão.
A iniciativa de reabrir essa discussão partiu dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino. E é justamente aí que o debate se torna mais delicado. Os dois ministros estão associados, em diferentes graus, a controvérsias de natureza política, institucional e, no debate público, também moral e ética. Nesse contexto, uma movimentação do STF que pode interferir diretamente na atividade jornalística inevitavelmente produz uma pergunta incômoda: por que agora?
Não é necessário, para a proposta aqui inferida, fazer uma hierarquia dos problemas que envolvem a Corte. Seria possível falar das controvérsias relacionadas ao caso Master e das questões suscitadas em torno de integrantes do tribunal. Seria possível também discutir o chamado Inquérito das Fake News, aberto de ofício em 2019 e que permanece no centro de uma longa controvérsia sobre os limites de atuação do Supremo. Seriam digressões válidas, mas supérfluas.
O que importa é estimular um debate que precisa ser feito pela imprensa e, sobretudo, pela sociedade. E faço isso a partir de uma posição que pode parecer paradoxal: sou favorável ao diploma de jornalista e, ao mesmo tempo, considero inoportuna a revisão de sua exigibilidade nas circunstâncias atuais.
Em 2009, quando o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma, eu estava entre aqueles que discordavam da decisão. Continuo pensando da mesma maneira. Mas reconheço as contradições do argumento. Grandes jornalistas brasileiros, como Ricardo Boechat e Arnaldo Jabor, não tinham diploma. E é evidente que um pedaço de papel não transforma alguém em bom jornalista — ou sequer em jornalista.
Formação acadêmica não produz automaticamente talento, ética, independência ou compromisso com o interesse público.
O diploma, porém, pode funcionar como parâmetro de formação profissional. E essa discussão ganha ainda mais relevância justamente no momento em que o jornalismo enfrenta uma crise de identidade e de credibilidade. A precarização das redações, já um fator em 2009, é o pressuposto perverso da derrubada do diploma.
Vivemos uma época em que informação demais pode significar, paradoxalmente, informação de menos. O cidadão é submetido a um fluxo permanente de conteúdos, opiniões, vídeos, postagens, algoritmos e versões dos fatos. Interesses econômicos e políticos disputam a atenção pública. A fronteira entre informação, propaganda, opinião e entretenimento tornou-se cada vez mais difusa.
Nesse ambiente, o bom jornalismo, que já não vive seus melhores dias, precisa ser salvaguardado. E é aí que aparece o paradoxo brasileiro. Justamente quando deveríamos estar discutindo intelectualmente, e até existencialmente, que tipo de jornalismo queremos construir e que tipo de sociedade pretendemos formar, o debate é capturado pela polarização política. Em vez de discutirmos o âmago da profissão, discutimos quem está propondo a mudança. Essa contaminação do debate o tergiversa por completo. E, suprema ironia, traz consigo alguns dos malefícios do jornalismo contemporâneo: a proliferação de opiniões, muitas das vezes sem embasamento, de reprodução de falas de fontes sem o devido filtro jornalístico e a escassez de reportagens de fôlego, de uma problematização eloquente e robusta dos fatos e narrativas.
O STF, por sua atuação mais recente e por sua aproximação pragmática com o governo de ocasião, passou a ser defendido quase cegamente por determinados setores da esquerda. Ao mesmo tempo, é atacado frontalmente — e muitas vezes de maneira igualmente simplificadora — por parcelas da direita. Nesse ambiente de antagonismos, o próprio conceito de jornalista fica sub judice.
E esse talvez seja o aspecto mais desestabilizador de toda a discussão. O debate que deveria ser sobre o jornalismo acaba sendo transformado em mais uma batalha sobre o Supremo, o governo, a esquerda, a direita e as disputas de poder que atravessam a sociedade brasileira.

O que deveria nos interessar é outra coisa.
Quem pode ser jornalista? O que caracteriza o exercício profissional? Qual é o papel da formação universitária? Como proteger a liberdade de imprensa sem transformar a profissão em uma corporação fechada? Como estabelecer critérios de responsabilidade sem permitir que o Estado determine quem tem ou não o direito de informar? E, sobretudo, como preservar o interesse público em uma sociedade em que qualquer pessoa pode produzir e distribuir informação para milhões de outras?
Essas são as perguntas que realmente importam.
A ironia é que a discussão sobre o diploma poderia ser uma excelente oportunidade para enfrentá-las. Mas, quando o debate parte de uma instituição que está permanentemente sob escrutínio da própria imprensa, qualquer movimento nesse sentido precisa ser recebido com enorme cautela. Porque o jornalismo não pode ser tutelado por quem ele também precisa fiscalizar.
Sou favorável ao diploma. Mas não quero que ele seja recuperado como instrumento de uma disputa institucional. Não quero que uma questão tão importante para a profissão seja resolvida em função das conveniências conjunturais de uma Corte, de um governo ou de qualquer grupo político.
O jornalismo precisa discutir a si próprio antes que outros discutam por ele. E se formos incapazes de fazer isso, quem terá a perder não será apenas a imprensa. Será o Brasil. Talvez esse seja o meu pessimismo profissional falando mais alto. Mas há momentos em que o pessimismo do jornalista nada mais é do que a obrigação de olhar para onde todos preferem não olhar.