Precisamos falar sobre Alice Carvalho

Para o Brasil e, cada vez mais, para o mundo, Alice Carvalho é um dos nomes mais potentes do audiovisual brasileiro contemporâneo. Desde “Cangaço Novo”, série do Amazon Prime Video que a apresentou a um público mais amplo, a atriz vem construindo uma trajetória que chama atenção menos pela quantidade de trabalhos do que pela capacidade de fazer com que cada personagem pareça ocupar um espaço maior do que o previsto no roteiro.

Atualmente em cartaz na série “Fúria”, da Netflix, Alice confirma uma característica que começa a se tornar sua assinatura: uma potência dramática difícil de ignorar, um olhar penetrante e, na falta de um trocadilho melhor, uma atuação furiosa. Ela é daquele tipo de intérprete que não passa despercebida. Muito pelo contrário. A câmera se embevece dela.

Foi assim com Dinorah, em “Cangaço Novo”, personagem que mudou o patamar de sua carreira. A atriz, nascida em Natal e criada em Parnamirim, chegou ao papel depois de uma trajetória que começou no teatro e passou por experiências independentes como “Septo”, projeto que criou, escreveu e protagonizou para a internet. Antes de se tornar conhecida nacionalmente, Alice já havia aprendido a fazer praticamente tudo o que envolve a criação audiovisual. Essa formação ajuda a entender a segurança que demonstra diante da câmera.

Dinorah, entretanto, foi o divisor de águas. A personagem exigiu preparação física, treinamento de luta, equitação e manejo de armas, mas exigiu sobretudo presença. Alice não interpretou apenas uma mulher inserida naquele universo de violência e cangaço. Ela tomou posse da personagem.

É uma característica que pode representar um risco. Alice Carvalho é uma atriz que domina o papel, engole a cena e não deixa muito espaço para que outras atuações se viabilizem ao seu redor. Em tese, isso poderia ser um problema. Na prática, é justamente uma de suas maiores virtudes — desde que a direção saiba potencializar essa força em vez de tentar domesticá-la.

Alice é o tipo de atriz que precisa ser usada como vantagem narrativa.

“Renascer”, novela da Globo, ampliou seu alcance junto ao público brasileiro. “Guerreiros do Sol”, outra novela global, aprofundou sua relação com personagens nordestinas e com um universo que, de diferentes maneiras, atravessa sua formação. E “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, acrescentou outra camada à trajetória. Mesmo em um papel pequeno, Alice chamou a atenção da crítica internacional no filme protagonizado por Wagner Moura, apresentado em Cannes e incensado ao Oscar.

A atriz ao lado da equipe de “O Agente Secreto” em Cannes | Reprodução/Instagram

É sintomático que uma atriz capaz de concentrar tanta energia em poucos minutos de tela tenha conseguido produzir impacto justamente em um filme no qual seu espaço era limitado. Alice não precisa necessariamente de muito tempo para deixar uma marca.

Agora ela se prepara para um papel que pode representar sua mudança definitiva de patamar: Marta Vieira da Silva, a maior jogadora de futebol de todos os tempos, na cinebiografia dirigida por Andrucha Waddington. O filme tem previsão de lançamento para 2027, justamente no ano em que o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina.

A escolha parece fazer sentido para além da semelhança física ou da capacidade de interpretar uma atleta. Alice tem uma relação particular com personagens que carregam no corpo e no comportamento alguma espécie de resistência. Para viver Marta, vem se submetendo a uma preparação intensa e mantendo contato próximo com a própria jogadora, que acompanha o processo.

E existe aí um componente adicional. Marta não é uma personagem inventada. É uma mulher conhecida mundialmente, cuja trajetória já pertence ao imaginário coletivo. Interpretá-la significa encontrar uma pessoa por trás do ícone.

A própria Alice sabe disso. Em entrevista à Marie Claire, definiu a tarefa como “uma responsabilidade imensa” e disse que Marta é uma pessoa que ama e que hoje pode chamar de amiga. A relação entre as duas acrescenta uma dimensão particularmente interessante ao projeto: a atriz não está apenas estudando a personagem; está convivendo com a mulher que irá representar.

Talvez por isso seja cedo para dimensionar o que o filme poderá significar para sua carreira. Mas é possível afirmar que Alice está chegando a ele preparada por uma sequência bastante singular de trabalhos.

São personagens e universos diferentes, uma espécie de laboratório antes do grande salto.

TV Globo

E Alice parece estar diversificando, ramificando seu talento justamente antes de entrar definitivamente na boca do povo com a cinebiografia de Marta. O movimento é inteligente. Em vez de ser imediatamente identificada com Dinorah, ela vem demonstrando que existe uma atriz maior do que a personagem que a revelou.

É uma dessas intérpretes pelas quais você não consegue simplesmente passar. A partir do momento em que se entra em contato com ela, alguma coisa acontece. Talvez seja o olhar. Talvez seja a intensidade. Talvez seja a sensação de que existe sempre alguma coisa prestes a explodir por trás da personagem.

Sua força dramática é sedutora demais para ser ignorada.

E se “Cangaço Novo” foi o momento em que Alice Carvalho apareceu no radar, “O Agente Secreto” mostrou que ela podia atravessar fronteiras, e “Marta” pode ser o momento em que ela finalmente se torna uma atriz conhecida por todos.

Alice Carvalho está a caminho de um novo patamar. E, ao que tudo indica, vai chegar até lá sem diminuir a própria intensidade para caber na tela.

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