Na semana passada, escrevi nesta coluna sobre uma pergunta que voltou a ocupar o centro do debate público: o que é ser jornalista? A discussão ganhou novo impulso diante da disposição do Supremo Tribunal Federal de rever o entendimento que, desde 2009, afastou a exigência do diploma em Jornalismo para o exercício da profissão.
É um debate complexo, que envolve formação, liberdade de expressão, responsabilidade profissional e, sobretudo, o papel social do jornalismo numa época marcada pela pós-verdade, pela desinformação e pela hipertrofia informacional.
Curiosamente, na mesma semana, um episódio aparentemente muito menor — e, à primeira vista, distante das grandes abstrações institucionais — ofereceu uma ilustração bastante concreta desse mesmo dilema.
Regina e Gabriela Duarte, mãe e filha, voltaram a atuar juntas no teatro depois de mais de duas décadas. Por ocasião da divulgação da peça ” A Filha Da”, as duas concederam uma entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em vídeo. A história, por si só, já carregava um interesse cultural e afetivo evidente: duas atrizes de gerações diferentes, pertencentes a uma das famílias mais conhecidas da dramaturgia brasileira, reencontrando-se profissionalmente no palco após mais de 20 anos.
Mas a entrevista seguiu por outro caminho.
O interesse central da conversa rapidamente passou a ser as convicções políticas de Regina Duarte. Vieram perguntas sobre sua passagem pelo governo Bolsonaro, sobre eventuais consequências dessa escolha em sua vida profissional e pessoal, sobre a possibilidade de voltar à política e sobre futuros apoios eleitorais.
Nada disso é, em princípio, ilegítimo. Regina Duarte ocupou um cargo público e sua trajetória política é, naturalmente, matéria de interesse jornalístico. O jornalista tem o direito e, em determinadas circunstâncias, o dever de fazer perguntas desconfortáveis.
O problema começa quando o desconforto parece se transformar no próprio objetivo da entrevista.
Gabriela Duarte demonstrou incômodo com o rumo da conversa e, sobretudo, com a disposição da mãe em responder às perguntas. Houve um momento de tensão entre as duas, que acabou viralizando nas redes sociais. Do lado de cá da tela, a situação poderia até parecer divertida: uma filha tentando interromper a mãe, uma mãe insistindo em responder porque, afinal, “o rapaz está perguntando”.
Poucos dias depois, Gabriela publicou um vídeo refletindo sobre aquele episódio e, sem talvez perceber a dimensão da discussão que estava abrindo, tocou em alguns dos problemas mais profundos do jornalismo contemporâneo.
O jornalista, disse ela em essência, deve fazer perguntas incômodas. Mas também precisa ouvir. O jornalismo deve ser um espaço de escuta e de respeito. E, sobretudo, não pode permitir que a busca pela sobrevivência transforme a polêmica em método, o constrangimento em linguagem e a repercussão em critério absoluto de relevância.
A observação é especialmente pertinente porque parte de uma percepção que já se tornou quase consensual: o jornalismo está economicamente fragilizado e estruturalmente pressionado.
A precarização das redações, a implosão digital provocada pelas redes sociais, a ascensão dos influenciadores, a fragmentação da audiência e a dificuldade de monetização produziram um ambiente em que a atenção se tornou um recurso escasso e brutalmente disputado.
Nesse cenário, o jornalismo passou a competir não apenas com outros veículos, mas com qualquer pessoa capaz de produzir um vídeo de trinta segundos, publicar uma opinião inflamável ou transformar uma reação espontânea em conteúdo viral.
Empobrecimento existencial
Na luta pela sobrevivência, busca-se a polêmica. Busca-se o embate. Busca-se a frase que será recortada, descontextualizada e compartilhada. Busca-se o constrangimento porque o constrangimento gera engajamento. E, muitas vezes, o engajamento parece valer mais do que a história.
O que era mais relevante naquela entrevista? O reencontro de Regina e Gabriela Duarte nos palcos depois de mais de 20 anos ou a possibilidade de produzir mais um capítulo de uma disputa política que já ocupa quase todos os espaços da vida pública brasileira? Afinal, Regina Duarte já deixou o governo Bolsonaro há mais de 7 anos e já falou inúmeras vezes a respeito.
Não se trata de defender uma espécie de assepsia cultural. Cultura e política sempre se atravessaram. Regina Duarte é uma figura pública e sua trajetória não desaparece porque ela está promovendo uma peça de teatro. Mas existe uma diferença fundamental entre contextualizar uma história e permitir que a política (ou um episódio em uma vasta trajetória) a devore.
Essa talvez seja uma das características mais melancólicas do jornalismo brasileiro contemporâneo. A polarização política não apenas contaminou o debate público: ela passou a organizar parte da própria lógica de produção das notícias. Não se busca apenas reportar um fato. Busca-se descobrir a qual trincheira ele pertence.

A vigilância do poder, que deveria ser um princípio elementar do jornalismo, muitas vezes também acaba subordinada às narrativas convenientes para determinado campo político. Os interesses econômicos e políticos, evidentemente, sempre existiram. Seria ingênuo imaginar um passado imaculado, em que a imprensa estivesse completamente livre deles. Mas houve períodos em que o jornalismo parecia mais resiliente, mais autoconsciente de suas próprias contradições e mais comprometido com a complexidade dos fatos. Hoje, essa complexidade frequentemente é percebida como um obstáculo. Ela não cabe bem no título. Não viraliza com facilidade. Não produz indignação instantânea.
Gabriela Duarte, acuada por uma entrevista que acabou escapando completamente da história que ela imaginava estar contando, talvez tenha contribuído involuntariamente para um debate muito maior. Um debate que, infelizmente, corre o risco de desaparecer antes de produzir qualquer consequência — como lágrimas na chuva, para lembrar o monólogo imortalizado por Rutger Hauer em “Blade Runner”.
Porque o problema não está apenas naquela entrevista. Nem naquele repórter. Nem na Folha de S.Paulo. O episódio é apenas uma pequena janela para uma crise muito mais ampla.
Estamos discutindo diploma, regulação, liberdade de expressão e inteligência artificial. Discutimos fake news, algoritmos e o colapso do modelo econômico das redações. Mas talvez existam perguntas mais elementares: o jornalismo ainda se lembra de sua vocação social? É capaz de voltar a operar nesse esquadro?
Se a resposta for negativa, nenhum diploma será capaz de salvá-lo. Nenhuma decisão do Supremo o protegerá. Nenhuma inovação tecnológica devolverá ao jornalismo aquilo que ele próprio decidiu abandonar.
É triste imaginar que esse debate também possa desaparecer sem deixar vestígios, dissolvido na velocidade impiedosa do próximo escândalo, da próxima polêmica, do próximo vídeo viral.
Ainda assim, vale insistir. Este artigo pretende ser, sem falsa modéstia, um pequeno farol nessa noite escura e ruidosa do jornalismo brasileiro. Não porque ofereça respostas definitivas, mas porque insiste na pergunta incômoda que o jornalismo, diferentemente de Regina Duarte, não quer responder. E o espaço de escuta está aberto.