Desde o clássico livro “O Príncipe”, de Nicolau Maquiável, que sabemos que o sucesso na política depende de uma combinação de capacidade (que ele chama de Virtu) com sorte (que ele chama de Fortuna). Um líder com capacidade e sem sorte vai ter muitas vitórias, porém fatalmente perderá em algum momento; pior é o líder com sorte, mas sem capacidade. Este certamente vai perder mais do que ganhar.
Pois a conjuntura atual para Lula e para o campo progressista no Brasil está marcada por uma rara combinação de capacidade e sorte. Nesta semana que se inicia em 25 de maio a Câmara dos Deputados vai concluir a votação da PEC que põe fim a Escala 6 x 1 e institui a escala 5 x 2 sem redução salarial. E é de extrema importância que essa votação venha a ocorrer na esteira da revelação das relações entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso por fraudes bilionárias.
Os aúdios e mensagens entre eles tiveram como consequência um enfraquecimento da candidatura bolsonarista. Tal enfraquecimento foi confirmado em duas pesquisas divulgadas na semana passada, após a notícia das relações intimas entre os dois circular em todo o eleitorado e do próprio Flávio Bolsonaro admitir que foi até a casa de Vorcaro quando o banqueiro estava em prisão domiciliar. Primeiro, na pesquisa Atlas divulgada em 18 de maio, Lula cresceu pouco, saindo de 46,6% para 47%. O mais importante foi que Flávio caiu muito, baixando de 39,7% para 34,3%. Já no Datafolha de 22 de maio, a distância entre os dois era de 3% e passou para 9%: Lula marcou 40% contra 38% da pesquisa anterior e Flávio recuou de 35% para 31% no mesmo período.
Com esses números, Flávio Bolsonaro tem se preocupado mais em estancar a sangria e não perder seu eleitorado fiel para os competidores da extrema-direita (Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Rennan Santos). Isso o leva a consolidar posições mais radicais, mesmo que sejam rejeitadas pela maioria. Não foi por outra razão que seu partido, o PL fechou questão contra o fim da escala 6 x 1. A estratégia da direita e do empresariado, contudo, não será de lutar pela rejeição da PEC, dado o alto custo político desta posição. As elites políticas e econômicas têm atuado para criar compensações que protejam as empresas dos custos econômicos que a instituição da escala 5 x 2 supostamente traria.
Uma destas compesações parece mais fácil de combater, que é a ideia de “bolsa-patrão”. Alguns parlamentares bolsonaristas, tais como Nicolas Ferreira, apresentaram a ideia de uma compensação financeira para o empresariado. O campo progressista conseguiu enfrentar de modo unificado este tipo de proposta, caracterizando-a como algo equivalente a dar uma “bolsa-escrividão” para os senhores de escravo quando ocorreu o fim da escravidão no Brasil.
O problema é que a outra proposta das elites vem ganhando mais aderência, inclusive dividindo o governo Lula. Trata-se da proposta de uma transição lenta e gradual – a repetição dos termos usados ao fim da Ditadura Militar de 64 não é mera coincidência – entre o fim da Escala 6 x 1 e a nova escala 5 x 2. Neste transição, a cada ano o trabalhador diminuiria um número X de horas da sua jornada, até finalmente chegar nas 40 horas trabalhadas. A proposta com mais força faria esta transição em 4 anos, até 2030.
Trata-se, como sempre, de uma manobra para impedir que o povo exerça de fato um direito após ele ser consolidado na Constituição. A transição abre as portas para dois tipos de retrocesso: o primeiro é no dia a dia do trabalhador, com as empresas burlando a redução gradual a partir dos vários expedientes de controle patronal disponíveis; o segundo é uma reversão da própria legislação pelos parlamentares que serão eleitos em 2026. Há uma grande chance de termos um congresso com uma composição ainda pior para o campo progressista, diante das operações de emendas e fundo eleitoral que impulsionam candidaturas de direita. E a direita não tem tido nenhuma vergonha ou limite em produzir retrocessos legislativos, como ficou nítido com o Pacote do Agro aprovado recentemente pela Câmara dos Deputados, com mais uma devastação dos mecanismos de proteção ao meio ambiente que o Estado Brasileiro dispõe.
Neste sentido, tem sido muito importante a posição firme do ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, de recusar a transição entre as escalas a não ser para pequenas empresas e alguns setores específicos, que sejam de fato mais fragilizados. Boulos vem argumentando que, além do risco de retrocessos, há um impacto imediato nas pessoas caso a transição seja aprovada: o reforço do sentimento antissistema, diante demais uma manobra das elites políticas e econômicas contra os direitos do povo. As pessoas se sentirão enganadas se a escala 5 x 2 não valer imediatamente. Caso isso ocorre, que seja sem os votos do campo progressista.
Além disso, é preciso aproveitar a sorte da conjuntura, com a desmoralização da candidatura de Flávio Bolsonaro. Até porque ele não está morto e vai se manter competitivo, na casa dos 40% das intenções de voto. Mas, no momento, está na defensiva e com menos condições de barrar o avanço concreto do fim da escala 6 x 1.
É hora, portanto, de uma ofensiva política e social, nas ruas e das redes, para aprovar o fim da escala 6 x 1. Os atos do dia 24 de maio foram um pontapé inicial nesta semana decisiva para consolidar esse avanço tão importante nos direitos do povo. Mas é preciso continuar a mobilização ao longo dos próximos dias para evitar retrocessos na votação.