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Fernando Frazão/Agência Brasil

A proposta de redução da jornada de trabalho tornou-se um dos pontos mais controversos do debate político atual. Para o cientista político Felipe Nunes, sócio-fundador da Quaest e autor de “Brasil no Espelho”, a medida ilustra um problema mais profundo do governo federal: a dificuldade de se comunicar com os trabalhadores do chamado “novo mercado de trabalho”, como motoristas de aplicativo e lojistas de plataformas digitais.

Em entrevista ao Estadão, Nunes argumenta que o governo propõe regulação, jornada de trabalho e carteira assinada como conquistas, mas “está falando para um eleitor que cada vez mais existe em menor proporção — e deixando de falar com uma multidão”. O problema, segundo ele, não está na falta de medidas, mas na falta de percepção por parte da população. “O que as pessoas percebem de forma concreta é o preço dos alimentos e a inflação do dia a dia”, afirma.

A redução da jornada de trabalho, que prevê dois dias de descanso para cada cinco trabalhados, atinge basicamente os trabalhadores formais. No entanto, a informalidade avança de maneira impressionável no Brasil. O discurso do governo apresenta o aumento do período de descanso como principal atrativo, mas pesquisas qualitativas conduzidas por Nunes revelam uma realidade diferente: boa parte das pessoas usaria o tempo livre para arranjar outro trabalho e aumentar a renda, “porque o dinheiro não está dando”.

Para o cientista político, essas soluções são inspiradas num modelo de política mais antigo, acostumado às demandas dos movimentos sindicais e dos trabalhadores com carteira assinada. “O PT foi construído sobre uma visão de mundo centrada no trabalho formal, na CLT, na organização sindical. O problema é que o Brasil mudou”, observa Nunes. Ele prevê que a eleição de 2026 será decidida pelo mercado de trabalho — não mais o das fábricas ou do funcionalismo, mas o dos aplicativos, dos microempreendedores individuais (MEIs) e dos autônomos.

Nesta frente, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, está encarregado de atuar na melhora do diálogo. Parte desse esforço está na proposta que regulamenta o trabalho por aplicativo e impõe balizas para remuneração e proteção social dessa nova figura de trabalhador.

Nunes destaca que os trabalhadores de plataformas digitais são, em sua maioria, filhos das classes D e E, jovens que desenvolveram uma nova identidade. “Eles se enxergam como empreendedores, detestam ser chamados de ‘precarizados’ e dizem que não precisam de carteira assinada nem de proteção do Estado”, descreve. Quando o governo propõe regulação das plataformas com foco em vínculo empregatício, uma parte relevante desse público interpreta a medida como ameaça à autonomia, não como proteção.

Nunes reconhece que havia uma janela de oportunidade para regulamentar as profissões ligadas a plataformas, mas o desafio era imenso. “Esse é um eleitor que não entende regulação como proteção, e sim como intromissão indevida na sua liberdade”, explica. Para ele, o governo perdeu a chance de construir uma narrativa que demonstrasse compreensão do novo trabalhador. “Acho que se perdeu uma oportunidade aqui. De mostrar que sabia que tinha chance de melhorar sua conexão com esse público.”

A questão da jornada de trabalho também se insere em um contexto mais amplo de desencanto com a qualidade de vida. Nunes aponta que a chamada “geração.com” — nascida entre 2000 e 2009, que cresceu nos primeiros governos Lula — teve mais acesso ao ensino superior, mas não conseguiu a ascensão social prometida. “São pessoas com diploma e sem perspectiva equivalente ao que esse diploma prometia”, resume. Essa frustração, segundo ele, se transforma em ressentimento político.

Sobre a relação entre indicadores econômicos e popularidade, Nunes é categórico: “Macro bom com micro ruim é uma combinação politicamente letal”. Para 71% dos entrevistados em pesquisas da Quaest, o presidente não tem conseguido cumprir suas promessas de campanha. “O eleitor desconfia do narrador, não só da narrativa”, conclui o especialista, para quem o desafio do governo não é econômico, mas de credibilidade.

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