
O financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, o filme “Dark Horse”, deixou de ser apenas um problema de bilheteria política para se tornar um imbróglio de competência dentro do Supremo Tribunal Federal. Duas frentes de investigação, conduzidas por dois ministros diferentes, avançam sobre o mesmo objeto — a origem dos recursos que bancaram a produção — sem que a Corte tenha definido, até agora, quem deve concentrar o caso. O resultado é uma tensão que mistura disputa jurídica de competência com cálculo político explícito.
De um lado está Flávio Dino, que herdou da ex-ministra Rosa Weber a relatoria dos processos sobre emendas parlamentares. Foi nesse território que surgiu a suspeita de que recursos públicos, repassados por deputados a empresas e organizações sociais, teriam sido desviados para financiar o filme. Do outro lado está André Mendonça, relator do inquérito sobre o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro — investigação em que apareceu a hipótese de que milhões de reais ligados ao banqueiro teriam sido usados para custear a mesma produção, desta vez envolvendo diretamente o senador Flávio Bolsonaro.
O problema é que as duas apurações, embora nascidas de contextos distintos, convergem para a mesma pergunta: de onde veio o dinheiro do “Dark Horse”. Essa sobreposição fez a defesa de Flávio Bolsonaro agir. Advogados do senador pediram ao presidente do STF, Edson Fachin, que a parte do caso sob relatoria de Dino seja transferida para Mendonça, sob o argumento de que este já seria o relator natural por prevenção ao inquérito do Banco Master. Um pedido paralelo, apresentado pelo deputado Lindbergh Farias e inicialmente dirigido a Alexandre de Moraes, também acabou nas mãos de Fachin, depois que a Procuradoria-Geral da República recomendou que o tema fosse tratado junto ao processo já sob supervisão de Mendonça.
Não é uma disputa neutra. A escolha de Mendonça como destino preferencial da defesa ocorre num momento em que o ministro e Flávio Bolsonaro protagonizaram cenas de proximidade pública, como a Marcha para Jesus em São Paulo, em julho, quando dividiram o mesmo palanque. A movimentação alimenta a leitura de que a briga por relatoria não é apenas técnica, mas estratégica: cada ministro imprime um ritmo, um grau de sigilo e uma disposição diferente para aprofundar a apuração.
Essa diferença de ritmo é visível. Dino tem avançado publicamente na trilha das emendas parlamentares, autorizando a Polícia Federal a examinar provas contra pessoas e entidades ligadas ao filme. Já o inquérito de Mendonça sobre o papel de Flávio Bolsonaro, aberto em julho após parecer favorável da PGR, permanece discreto — sem indícios públicos de medidas de maior impacto, como quebras de sigilo bancário, buscas e apreensões ou acesso a dados digitais, embora o sigilo processual possa esconder decisões já tomadas. Quatro frentes que ainda poderiam ser aprofundadas nesse braço da investigação, da rastreabilidade financeira à cooperação internacional, mas que dependem de iniciativa da PF ou da PGR.
O risco de decisões conflitantes e crise institucional se agrava com dois ministros, examinando o mesmo fato sob óticas diferentes e podendo chegar a conclusões ou medidas incompatíveis. Esse cenário aumenta a pressão sobre Fachin.
A disputa dentro do STF ganhou peso adicional porque deixou de ser um capítulo isolado. Mendonça também relata o inquérito sobre suposto tráfico de influência envolvendo Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, além de apuração que atinge o ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola. Isso colocou o mesmo ministro no centro de duas frentes que atingem, simultaneamente, os núcleos familiares dos dois principais candidatos à Presidência em 2026.
Pesquisas mostram que o caso “Dark Horse” já custou parte da confiança de eleitores em Flávio Bolsonaro, elevando sua rejeição e criando dúvidas sobre o quanto ele sabia das tratativas com Vorcaro. Mas o desgaste, antes concentrado no campo bolsonarista, tornou-se recíproco à medida que avançam as apurações ligadas a Lulinha. As duas campanhas já tratam o STF, a Polícia Federal e a briga por relatorias como parte do tabuleiro eleitoral e um vetor central da disputa pelo Planalto.