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Marcos Oliveira/Agência Senado

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) fez nesta quarta-feira (13) sua crítica pública mais dura até agora contra Flávio Bolsonaro após as revelações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Em vídeo publicado nas redes sociais, Zema afirmou que a relação do senador com Vorcaro é “imperdoável”, acusou Flávio de reproduzir práticas que o bolsonarismo costuma atribuir ao PT e afirmou que o episódio representa “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.

A declaração provocou forte repercussão política porque partiu de um dos nomes mais próximos do senador dentro do campo conservador nos últimos meses e aprofundou sinais de fragmentação na direita às vésperas da eleição presidencial de 2026.

“Flavio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta criticar as práticas de Lula e PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”, afirmou Zema no vídeo publicado nesta quarta.

A fala foi interpretada por aliados do próprio ex-governador como um rompimento político explícito com o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro, que vinha tentando consolidar uma frente ampla da direita após receber apoio formal do ex-presidente Jair Bolsonaro no fim de 2025.

O peso político da declaração aumentou porque Zema vinha sendo tratado nos bastidores do PL e de setores do empresariado como um dos principais nomes cotados para ocupar a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. Desde o fim do ano passado, a aproximação entre ambos vinha sendo construída por aliados que defendiam uma composição capaz de unir o núcleo bolsonarista mais fiel a setores liberais e empresariais da direita.

A avaliação dentro do entorno de Flávio era que Zema ajudaria a reduzir resistências no mercado financeiro, ampliar pontes com empresários e suavizar a imagem mais radicalizada do bolsonarismo tradicional.

Aproximação entre Zema e Flávio vinha crescendo

A relação política entre os dois se intensificou após a inelegibilidade e posterior prisão de Jair Bolsonaro, quando Flávio passou a ser tratado dentro do PL como principal herdeiro eleitoral do bolsonarismo nacional. Com a direita entrando antecipadamente em movimentação para 2026, governadores e lideranças conservadoras começaram a discutir alianças e possíveis composições eleitorais. Nesse contexto, Zema passou a aparecer com frequência ao lado de Flávio Bolsonaro em agendas públicas, reuniões reservadas e articulações nacionais da direita.

As especulações cresceram publicamente em abril, quando um vídeo divulgado nas redes sociais mostrou Zema e Flávio Bolsonaro brincando sobre a possibilidade de uma chapa conjunta. O episódio repercutiu em veículos nacionais e passou a ser tratado nos bastidores políticos como um sinal claro de aproximação eleitoral. Na gravação, ambos aparecem em tom descontraído comentando a possibilidade de composição para 2026, enquanto aliados estimulavam publicamente uma união entre PL e Novo.

Na mesma época, o próprio Zema chegou a afirmar publicamente que havia convidado Flávio Bolsonaro para ocupar a vice em uma eventual candidatura presidencial sua. A declaração foi dada durante agenda política em Goiânia e demonstrava o nível de interlocução que ambos mantinham naquele momento. “Já conversei isso com o Flávio Bolsonaro. Inclusive eu o convidei para ser vice”, declarou o ex-governador mineiro.

Apesar da aproximação, integrantes do Novo e aliados mais próximos de Zema já demonstravam desconforto com uma aliança definitiva com o núcleo bolsonarista. Nos bastidores, havia receio de que uma composição com Flávio Bolsonaro acabasse associando diretamente o ex-governador mineiro a crises judiciais, investigações e ao desgaste político acumulado pelo bolsonarismo desde os atos golpistas de 8 de janeiro.

Caso Vorcaro aprofundou desgaste

O estopim da ruptura pública foi a investigação divulgada nesta quarta-feira pelo Intercept Brasil, que revelou mensagens privadas, áudios, comprovantes bancários e documentos envolvendo negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para bancar a produção internacional do longa, com ao menos US$ 10,6 milhões já transferidos entre fevereiro e maio de 2025.

O material divulgado inclui mensagens de proximidade entre Flávio e Vorcaro, cobranças por pagamentos atrasados e conversas relacionadas à continuidade financeira da produção. Em uma das mensagens reveladas pelo Intercept, enviada um dia antes da prisão do banqueiro, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”

As revelações ganharam dimensão política ainda maior porque Daniel Vorcaro se tornou um dos personagens centrais do escândalo envolvendo o colapso do Banco Master. O banqueiro foi preso em novembro de 2025 acusado de operar um esquema que teria provocado rombo estimado em R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Dias depois, o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira. Até então, setores do bolsonarismo vinham utilizando o caso Banco Master como símbolo de corrupção ligada ao sistema político e financeiro próximo ao governo federal. A revelação da relação direta entre Flávio e Vorcaro provocou desconforto interno porque passou a atingir justamente o discurso anticorrupção usado historicamente pelo próprio campo conservador.

Direita entra em nova fase de disputa

A reação de Zema foi interpretada por analistas políticos e aliados do governo como um marco importante da disputa interna na direita para a eleição de 2026. Embora Flávio Bolsonaro continue sendo o principal nome ligado diretamente ao bolsonarismo, governadores e lideranças conservadoras passaram a demonstrar crescente resistência a uma candidatura unificada sob comando do senador.

Nos últimos meses, nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o próprio Romeu Zema passaram a defender projetos próprios de poder dentro da direita, buscando construir alternativas menos dependentes do núcleo bolsonarista tradicional. A crise envolvendo Daniel Vorcaro acelerou esse processo porque atingiu diretamente o discurso moral e anticorrupção utilizado pelo grupo político de Flávio Bolsonaro.

Nos bastidores de Brasília, integrantes do PL ainda tentam minimizar os impactos da declaração de Zema e evitar novos rompimentos públicos dentro do campo conservador. Mesmo assim, a fala desta quarta-feira foi vista como a crítica mais contundente feita até agora por um nome relevante da direita contra Flávio Bolsonaro desde o início do escândalo envolvendo Vorcaro e o Banco Master.

Flávio reage após fala de Zema e pede “CPI do Banco Master”

A crise ganhou um novo capítulo após a repercussão da declaração de Romeu Zema. Em nota divulgada à imprensa na noite desta quarta-feira (13), Flávio Bolsonaro afirmou que o contato com Daniel Vorcaro ocorreu exclusivamente para buscar “patrocínio privado” para o filme sobre Jair Bolsonaro e negou qualquer relação envolvendo dinheiro público, favorecimento político ou intermediação junto ao governo.

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos”, afirmou o senador no início da nota.

Flávio declarou ainda que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando, segundo ele, “não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”. O senador também afirmou que o contato foi retomado posteriormente apenas por causa do atraso nos pagamentos relacionados à produção do filme “Dark Horse”. “No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio PRIVADO para um filme PRIVADO sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, escreveu.

Na nota, Flávio Bolsonaro negou ter oferecido vantagens, promovido encontros privados fora da agenda oficial, intermediado negócios com o governo ou recebido recursos pessoais de Vorcaro. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, afirmou.

O senador também tentou diferenciar sua relação com Vorcaro das conexões atribuídas ao governo federal no caso Banco Master e voltou a defender a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito sobre o tema. “Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro. Por isso, reitero, CPI do MASTER JÁ”, concluiu.

A nota foi divulgada poucas horas depois de Romeu Zema chamar a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro de “imperdoável” e afirmar que o episódio representa “um tapa na cara dos brasileiros de bem”. Nos bastidores da direita, aliados do senador tentam conter os danos políticos provocados pela investigação do Intercept e pela reação pública de lideranças conservadoras ao caso.

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