“Faça o que eu falo, não faça o que eu faço”

Há uma distância estrutural entre o discurso público de Flávio Bolsonaro e sua trajetória concreta. O personagem que tenta se apresentar como porta-voz da segurança, da moralidade, da família, da liberdade e da soberania carrega, em praticamente todos esses campos, contradições documentadas ou politicamente exploráveis.

Ele fala em segurança pública, mas sua biografia política atravessa conexões sensíveis com o submundo do Rio de Janeiro: Adriano da Nóbrega, milícias, o caso Brazão/Marielle, emendas parlamentares sob investigação e alianças com grupos políticos fluminenses marcados por suspeitas graves. O problema, portanto, não é apenas o que ele diz sobre crime organizado. É a colisão entre o discurso de combate ao crime e os vínculos que cercam sua própria trajetória pública.

Ele fala em moralidade, mas carrega em sua biografia o caso da rachadinha, uma evolução patrimonial questionável e episódios envolvendo mansões em Angra dos Reis e Brasília. No caso da mansão do Lago Sul, o documento aponta financiamento pelo BRB, entrada elevada em dinheiro, quitação atípica e conexões com Paulo Henrique Costa, BRB e o entorno do caso Master-Vorcaro. As sucessivas versões apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com Daniel Vorcaro — muitas delas em contradição com suas próprias falas anteriores — demonstram sua inconsistência pública e sua conduta política vacilante.

Quando o Congresso foi chamado a responder à falta de transparência das emendas, Flávio Bolsonaro ficou do lado da blindagem, não do controle. Em 2021, votou a favor de uma regulamentação fraca que protegia o orçamento secreto já executado; em 2024, votou contra a regulamentação mais dura das emendas, construída após decisão do STF para exigir mais transparência. O padrão é claro: quando a escolha foi entre abrir a caixa-preta ou preservar o sistema, Flávio votou pela preservação do sistema.

Flávio se beneficia do sistema; não é combatente dele.

Ele fala em valores conservadores e diz ser contra jogos de azar, em aceno ao eleitorado evangélico e conservador, mas frequentou cassinos nos Estados Unidos, esteve em Las Vegas em missão oficial ligada à promoção de turismo e aparece associado a episódios de lobby e circulação em ambientes ligados à agenda dos jogos.

A contradição é direta: contra o jogo no discurso; próximo do jogo na prática.

Ele fala em proteção das mulheres, mas tratou o próprio voto favorável ao PL da Misoginia como uma “armadilha do PT” e sinalizou confiança em Nikolas Ferreira para arquivar a matéria na Câmara.

A síntese política é forte: votou por cálculo, não por convicção.

Ele fala em liberdade do trabalhador, mas no momento de pressão nacional pela escala 6×1, entrou na pauta trabalhista defendendo flexibilização, remuneração por hora e jornada “escolhida” pelo trabalhador. A promessa de liberdade esconde uma assimetria real: trabalhador pobre não negocia jornada em pé de igualdade com o empregador. Na prática, a proposta aproxima o trabalhador formal da lógica da informalidade.

Flávio Bolsonaro fala em proteger o bolso do contribuinte e do trabalhador — aderiu ao IR zero quando a pauta se tornou popular, mas votou contra a reforma tributária que simplificava o consumo e previa cashback e cesta básica para os mais pobres. Chamou-a de “mão no bolso” da população — embora o desenho aliviasse proporcionalmente a base. Diante de banqueiros no BTG Pactual, porém, defendeu um “tesouraço” à la Milei, classificou gasto social como “populista” e se recusou a dizer onde cortaria, alegando tratar-se de um “castelo de cartas”.

A colisão é direta: no palanque, posa como defensor do pobre; no mercado, promete cortes que recaem justamente sobre quem diz defender.

Populismo fiscal no voto; austeridade diante dos banqueiros.

Ele fala em soberania, mas é no exterior que age contra os próprios interesses do Brasil. Na CPAC, no Texas, pediu que os Estados Unidos exercessem “pressão diplomática” sobre as instituições brasileiras às vésperas das eleições. Em Washington, pediu pessoalmente a Trump que PCC e Comando Vermelho fossem designadas organizações terroristas estrangeiras — e o Departamento de Estado anunciou a medida dois dias depois, contra a posição do governo brasileiro.

O discurso patriótico, nesse caso, colide com a prática de buscar tutela estrangeira sobre temas sensíveis da vida nacional.

São dois gestos, uma mesma lógica: chamar a mão de fora para dentro da segurança pública e do processo político brasileiro. E essa mão não é neutra, nem amiga. A mesma potência a quem Flávio pede “ajuda” acaba de propor um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros e mira o Pix, que o bolsonarismo insiste tanto em alegar paternidade.

Flávio corteja quem busca prejudicar o Brasil.

A contradição é grave: em nome da soberania, Flávio pretende entregar a um governo estrangeiro uma chave de pressão sobre o próprio país.

Ao longo dos últimos anos, a conduta de Flávio Bolsonaro desenha um padrão. Segurança, moralidade, defesa das mulheres, trabalho e soberania funcionam como slogans de palanque — sustentados enquanto rendem voto, abandonados assim que o cálculo muda. Seus discursos estão eivados de incoerências; seus votos não traduzem convicção, traduzem conveniência.

Como diz a canção, suas ideias não correspondem aos fatos. Mas no caso de Flávio o descompasso não é distração — é estratégia.

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