A inteligência artificial está redesenhando o mercado de trabalho em tempo real e as empresas que apostam na demissão como estratégia principal podem estar cavando a própria cova. É o que sugerem, em conjunto, dois estudos recentes: um da Universidade Stanford e outro da Harvard Business Review, publicados com poucos dias de diferença.
A pesquisa de Stanford, conduzida pelo Laboratório de Economia Digital, analisou 41 empresas em quatro regiões do mundo (Ásia, América do Norte, América Latina e Europa), com mais de 1 milhão de trabalhadores no total. O resultado é direto: em 45% dos casos, a adoção de IA levou a cortes na força de trabalho. Outros 19% congelaram contratações, 17% realocaram funcionários e apenas 19% não realizaram corte algum.
Para Elisa Pereira, coautora do estudo, o caminho mais trilhado pelas empresas ainda é o do ganho de produtividade — fazer o mesmo trabalho mais rápido, com menos gente. “90% dos projetos que analisamos eram para ganhar produtividade”, afirma. O problema, segundo ela, é que esse atalho está diretamente associado a demissões. O caminho alternativo, usar IA para gerar novas receitas e atender segmentos de clientes antes inacessíveis, exige mais criatividade e reinvenção, mas evita cortes e pode até abrir vagas.
O cenário tende a se agravar. Um estudo da Anthropic mostrou que grandes modelos de linguagem já são capazes, em teoria, de realizar 94% das funções em programação, matemática, administração e finanças. A aplicação prática ainda está longe disso, mas a trajetória é clara.
É nesse contexto que o estudo da Harvard Business Review oferece um alerta importante sobre as consequências de cada escolha. Com base em pesquisa realizada em janeiro de 2025 com cerca de 1.300 profissionais nos EUA, Canadá e Reino Unido, o levantamento identificou dois caminhos estratégicos: a automação, que substitui trabalhadores para cortar custos, e o que os pesquisadores chamam de augmentation, ou potencialização, que usa a IA para elevar as capacidades humanas.
Os resultados de longo prazo diferem drasticamente. Empresas que optam pela automação enfrentam uma sequência de seis fases de declínio: resistência dos funcionários, queda de bem-estar e produtividade, entregas de baixa qualidade feitas sem critério com IA, aumento da rotatividade, enfraquecimento da marca empregadora e esvaziamento do pipeline de liderança. Já as que apostam na potencialização percorrem o caminho inverso, acumulando confiança, retenção e cultura organizacional mais sólida.
Os números reforçam a tese: funcionários que percebem intenção de potencialização relatam 32% menos vontade de deixar a empresa do que os que suspeitam de automação. E há uma distância preocupante entre líderes e liderados — 81% dos executivos seniores acreditam que suas empresas adotam a potencialização, mas apenas 53% dos funcionários concordam.
Casos recentes ilustram os dois extremos. Jack Dorsey, CEO da Block, demitiu mais de 4.000 pessoas citando a IA como justificativa. Já Micha Kaufman, do Fiverr, escolheu outro recado: a tecnologia liberaria seus funcionários para funções que exigem julgamento e criatividade — capacidades que considera exclusivamente humanas. A escolha entre esses dois caminhos, dizem os pesquisadores, definirá quem prospera, e quem apenas sobrevive, na era da inteligência artificial.