
O empresário e magnata da mídia Ted Turner morreu nesta quarta-feira (6), aos 87 anos, segundo confirmação divulgada pela própria CNN e por agências internacionais como Reuters, AP e AFP. Turner estava afastado da vida pública nos últimos anos após revelar, em 2018, o diagnóstico de demência por corpos de Lewy, doença neurodegenerativa semelhante ao Alzheimer. A morte encerra a trajetória de uma das figuras mais influentes e controversas da história da comunicação moderna.
Fundador da CNN em 1980, Turner transformou a lógica do jornalismo televisivo ao criar o primeiro canal de notícias 24 horas do mundo, mudando definitivamente a forma de cobertura de guerras, eleições, crises internacionais e acontecimentos em tempo real. O chamado “efeito CNN” passou a ser estudado como fenômeno geopolítico, descrevendo a capacidade da cobertura contínua de influenciar governos, mercados e decisões diplomáticas.
A criação da emissora foi inicialmente tratada com ceticismo pela indústria de mídia americana. Analistas consideravam inviável manter um canal exclusivamente jornalístico funcionando 24 horas por dia. Turner apostou no modelo mesmo diante de dificuldades financeiras e transformou a CNN em um dos maiores símbolos da televisão global nas décadas seguintes, especialmente durante a Guerra do Golfo, a queda do Muro de Berlim e os atentados de 11 de setembro.
Império midiático e personalidade explosiva
Antes da CNN, Turner assumiu a empresa de outdoors da família após o suicídio do pai e iniciou um processo agressivo de expansão no setor de comunicação. A partir de uma pequena emissora em Atlanta, construiu a Turner Broadcasting System, que posteriormente deu origem a canais como TNT, Cartoon Network e Turner Classic Movies.
Seu estilo impulsivo e confrontador se tornou parte da própria imagem pública. Turner acumulou apelidos como “Captain Outrageous” e “Mouth of the South”, conhecidos por declarações provocativas e conflitos frequentes com políticos, empresários e concorrentes. Ele travou uma rivalidade histórica com Rupert Murdoch durante a expansão da TV a cabo nos Estados Unidos e frequentemente atacava redes rivais e figuras conservadoras americanas.
Ao longo dos anos, Turner também gerou controvérsias por declarações sobre religião, política externa e armas nucleares. Em 2006, afirmou que o Irã tinha direito de possuir armas nucleares por ser um “Estado soberano”, o que provocou forte reação política nos Estados Unidos. Em outro episódio amplamente repercutido, sugeriu que desastres ambientais poderiam ser sinais de punição divina pela destruição ambiental causada pela humanidade.
Sua postura pública frequentemente dividia opiniões entre admiração e rejeição. Para críticos, Turner ultrapassava limites e transformava debates complexos em declarações performáticas. Para apoiadores, era um empresário disposto a romper consensos e desafiar estruturas tradicionais do poder político e midiático.
Filantropia, ONU e ambientalismo
Além da comunicação, Turner construiu uma das maiores fortunas da mídia americana e se tornou um dos maiores proprietários privados de terra dos Estados Unidos. Parte dessas propriedades foi usada para projetos de preservação ambiental e reintrodução de bisões no país, tema ao qual dedicou grande parte da vida.
Em 1997, anunciou a doação de US$ 1 bilhão para as Nações Unidas, em um dos maiores gestos filantrópicos individuais da época. A iniciativa levou à criação da Fundação das Nações Unidas e consolidou sua imagem internacional como defensor do multilateralismo, do desarmamento nuclear e das causas ambientais.
Turner também criou os Goodwill Games, competição esportiva concebida como alternativa diplomática em meio às tensões da Guerra Fria, além de participar de campanhas globais relacionadas à paz e ao combate à proliferação nuclear.
Venda da CNN e perda de influência
Em 1996, Turner vendeu a Turner Broadcasting para a Time Warner em uma operação bilionária que mudou o setor de mídia nos Estados Unidos. Apesar do valor histórico da negociação, o empresário passou a afirmar nos anos seguintes que se arrependeu da venda, especialmente após perder influência sobre a CNN e assistir à transformação do mercado televisivo diante da ascensão da internet e das redes sociais.
Nos últimos anos, Turner criticava publicamente o rumo da imprensa americana e lamentava a crescente polarização política nos canais de notícias. Ainda assim, permaneceu tratado como figura central da história da televisão contemporânea.
A morte de Turner provocou reações de líderes políticos, executivos de mídia, jornalistas e organizações internacionais. A Reuters destacou o papel do empresário na transformação do jornalismo global e na expansão da televisão a cabo. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que Turner “ajudou a aproximar o mundo através da informação”.