
Era o quarto período, e o Portland Trail Blazers estava em apuros. O Phoenix Suns havia virado o jogo, aberto 11 pontos de vantagem após uma sequência avassaladora de 11 a 0, e o sonho dos playoffs parecia escorregar pelos dedos. Na beira da quadra, de pé, Tiago Splitter observava. O brasileiro que um dia ergueu o troféu Larry O’Brien como jogador agora tinha nas mãos algo ainda mais improvável: a chance de se tornar o primeiro técnico latino a classificar uma equipe para os playoffs da NBA.
O que veio a seguir foi cinema. Deni Avdija, carregando o time nas costas como faz há meses, acumulou 41 pontos e, nos segundos finais, converteu a jogada decisiva de três pontos que selou a vitória por 114 a 110 sobre os Suns no play-in. Portland estava nos playoffs. E Tiago Splitter, na história.
A jornada até aquele momento no Mortgage Matchup Center foi longa e improvável. Splitter assumiu o comando dos Trail Blazers não por um planejamento grandioso, mas por circunstâncias que beiram o roteiro de filme. Logo no segundo dia da temporada, Chauncey Billups, o técnico titular, foi preso por suspeitas de envolvimento com jogos ilegais de pôquer ligados à máfia local. A vaga, de repente, caiu no colo do assistente brasileiro. Sem aviso. Sem ensaio.
O que se seguiu, no entanto, foi uma construção sólida e corajosa. Splitter imprimiu uma identidade defensiva raramente vista na NBA — pressão em quadra inteira numa frequência inédita na história da liga — e transformou um elenco jovem e inconstante em uma equipe competitiva. O grande símbolo dessa evolução foi a vitória sobre o Oklahoma City Thunder, então campeão, virando um jogo que estava perdido por mais de 20 pontos.
A temporada, claro, não foi sem percalços. Lesões castigaram os armadores, desestabilizaram o sistema e jogaram Portland para fora da zona de play-in por um período. Mas a equipe resistiu, se reorganizou e fechou a fase regular com campanha de 42 vitórias e 40 derrotas — a melhor desde 2021.
Agora, o desafio seguinte tem um sabor particular: nos playoffs, Splitter enfrentará o San Antonio Spurs, franquia onde jogou por cinco anos, conquistou o título em 2013-14 ao lado de Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginóbili, e construiu parte da lenda que o trouxe até aqui. “Vai ser uma série muito difícil. É um dos melhores times da NBA”, reconheceu o técnico, já com o olhar no próximo obstáculo.
Após a vitória, respondendo à imprensa brasileira, Splitter resumiu o significado do momento com a simplicidade de quem sabe exatamente o peso do que conquistou: “É muita gente me ligando, me mandando mensagem. Foi uma caminhada longa pra estar aqui, mas estou orgulhoso de poder representar nossas cores.”
O Brasil chegou à beira da quadra da NBA. E chegou para ficar.