feminicídios
Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil iniciou 2026 com o maior número de feminicídios já registrado para um primeiro trimestre desde o início da série histórica, em 2015. Dados do relatório de segurança pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam que 399 mulheres foram assassinadas entre janeiro e março. O volume representa uma média de uma morte a cada 5 horas e 25 minutos no país e uma alta de 7,5% em relação ao mesmo período de 2025.

A divulgação ocorre em um momento de inflexão na agenda pública sobre violência de gênero. No mesmo dia em que os dados foram apresentados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma nova lei voltada ao combate ao feminicídio e ao fortalecimento das medidas de proteção às mulheres. A legislação amplia mecanismos de prevenção, reforça a rede de atendimento e estabelece diretrizes para integração entre forças de segurança, Judiciário e serviços de assistência, com o objetivo de reduzir falhas na aplicação de medidas protetivas e ampliar a capacidade de resposta do Estado em situações de risco.

A coincidência entre o recorde de feminicídios e a sanção da nova lei evidencia um contraste recorrente nos últimos anos. O país avançou na construção de instrumentos legais, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio no Código Penal, mas os indicadores seguem em trajetória de crescimento. A leitura dos dados aponta que o principal desafio deixou de ser a formulação normativa e passou a ser a execução das políticas públicas e a capacidade de prevenção.

A evolução histórica reforça esse diagnóstico. Em 2015, primeiro ano da série, o país registrou 125 feminicídios no primeiro trimestre. Em uma década, o número mais que triplicou. Em 2022, foram 372 casos no mesmo período, e em 2024, 384. Em 2026, o país atinge o maior patamar da série. No acumulado anual, 2025 já havia registrado recorde, com 1.470 feminicídios, o que indica a manutenção de níveis elevados de violência no início de 2026 .

São Paulo concentra casos e registra aceleração acima da média

A análise por estado revela que São Paulo concentra o maior número absoluto de feminicídios no país, com 86 vítimas registradas apenas no primeiro trimestre de 2026. O dado mantém o estado na liderança nacional, mas o principal fator de atenção é a velocidade de crescimento. Levantamentos estaduais indicam aumento de 41% em relação ao mesmo período de 2025, o que equivale a uma mulher morta a cada 25 horas.

A tendência mostra aceleração consistente nos últimos anos. Em comparação com períodos anteriores, o crescimento acumulado supera 70% em determinados recortes, com avanço mais intenso fora da capital. O interior paulista passa a concentrar uma parcela crescente dos casos, o que indica uma mudança no padrão da violência e amplia o desafio de monitoramento e resposta por parte das autoridades.

Na sequência de São Paulo aparecem Minas Gerais, com 42 casos no primeiro trimestre, Paraná, com 33, Bahia, com 25, e Rio Grande do Sul, com 24. A concentração nas regiões Sudeste e Sul acompanha a densidade populacional, mas não explica isoladamente o ritmo de crescimento observado em alguns estados .

Medidas protetivas falham e violência se repete

Outro dado relevante é o crescimento do descumprimento de medidas protetivas, especialmente em São Paulo, onde o avanço desse indicador acompanha o aumento dos feminicídios. Esse cenário indica que parte dos crimes ocorre mesmo após decisões judiciais que deveriam garantir a proteção das vítimas, o que evidencia fragilidades na fiscalização e na execução dessas medidas.

O padrão reforça uma característica recorrente do feminicídio no Brasil. Na maioria dos casos, o crime é precedido por um histórico de violência, que inclui ameaças, agressões físicas, controle psicológico e isolamento da vítima. Em muitos episódios, já havia registros formais ou intervenções anteriores, o que demonstra falhas na interrupção do ciclo de violência.

A distribuição mensal dos casos confirma a persistência do problema ao longo do trimestre. Janeiro registrou 142 vítimas, fevereiro teve 123 casos e março voltou a subir para 134. Não há indicação de desaceleração consistente, o que reforça a natureza contínua da violência .

Sinais aparecem antes e prevenção segue limitada

Estudos indicam que sinais de alerta costumam surgir ainda nas fases iniciais das relações. Comportamentos como controle excessivo, ciúmes, monitoramento constante, restrição de contatos sociais e ameaças aparecem com frequência em casos que evoluem para violência física e, posteriormente, para o homicídio.

A dificuldade está na interrupção desse processo. Muitas vítimas enfrentam barreiras para acessar mecanismos de proteção ou não conseguem formalizar denúncias a tempo. Em outros casos, há falhas na resposta institucional, que ocorre apenas após a escalada da violência.

Esse contexto reforça a centralidade da prevenção. A identificação precoce de sinais de risco e o fortalecimento da rede de acolhimento aparecem como elementos essenciais para reduzir a incidência de feminicídios e interromper ciclos de violência antes que se tornem letais.

Entre avanço legal e desafio de execução

A nova lei sancionada pelo governo federal busca responder a esse cenário ao ampliar instrumentos de proteção e reforçar a articulação entre órgãos públicos. No entanto, os dados indicam que o principal desafio permanece na implementação dessas medidas e na capacidade de transformar normas legais em proteção efetiva no cotidiano das vítimas.

O início de 2026 sintetiza esse quadro. O país amplia seu arcabouço legal e, ao mesmo tempo, registra o maior número de feminicídios da série histórica para o período. A combinação desses fatores evidencia que o enfrentamento da violência contra mulheres depende menos da criação de novas leis e mais da execução, monitoramento e prevenção em escala.

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