O Brasil está na moda. Ao menos sob o olhar de Hollywood. Depois de emplacar, por dois anos consecutivos, produções indicadas ao Oscar tanto em Melhor Filme Internacional quanto na principal categoria, o país passa a ocupar também o centro de narrativas nos grandes streamings globais, como Netflix e Amazon Prime Video. À primeira vista, trata-se de um avanço: mais visibilidade, mais interesse, mais circulação. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que essa presença vem acompanhada de um velho problema, que é a dificuldade crônica da indústria norte-americana em representar outros países com alguma fidelidade.
Dois exemplos recentes ajudam a ilustrar esse paradoxo. O primeiro é “Bola pra Cima”, dirigido por Peter Farrelly, conhecido por comédias como “Quem Vai Ficar com Mary?” e pelo vencedor do Oscar “Green Book”. No novo filme, Mark Wahlberg e Paul Walter Hauser interpretam dois publicitários que criam uma campanha envolvendo preservativos para a Copa do Mundo no Brasil. Após perderem o contrato, viajam ao país para assistir à final — Brasil contra Argentina — e acabam, em uma reviravolta absurda, impedindo o gol de empate brasileiro, garantindo o título aos argentinos.
A premissa tem potencial cômico e até acerta ao explorar elementos reais, como a rivalidade futebolística e o fanatismo nacional. Há momentos em que o filme demonstra certa sagacidade, especialmente no humor físico característico do diretor. No entanto, o acúmulo de equívocos culturais — caricaturas, exageros, situações desconectadas da realidade brasileira — transforma a experiência, para o espectador brasileiro, em algo próximo da vergonha alheia. “Bola pra Cima” não fracassa por falta de energia ou intenção humorística, mas por se apoiar em uma visão superficial do país que tenta retratar.

Já a minissérie “Homem em Chamas”, fenômeno de audiência global na Netflix, apresenta um caso um pouco mais complexo. Adaptada do filme de 2004 dirigido por Tony Scott e estrelado por Denzel Washington — cuja trama original se passa no México —, a nova versão desloca a ação para o Brasil. Diferentemente do filme de Farrelly, há aqui um esforço visível de ambientação: a produção foi filmada no país e conta com nomes brasileiros como Alice Braga.
Ainda assim, a série não escapa de deslizes significativos. Traficantes que falam espanhol, organizações terroristas operando com lógicas genéricas de “filme de ação” e situações que ignoram especificidades sociais e culturais revelam um problema estrutural: o Brasil é tratado mais como cenário intercambiável do que como realidade concreta. A sensação é de que a narrativa poderia se passar em qualquer lugar — bastaria trocar a paisagem.
Esses dois casos apontam para uma tendência curiosa: o Brasil começa a ocupar, para Hollywood, um lugar semelhante ao que por muito tempo foi atribuído ao México — um território narrativo exótico, funcional, mas raramente compreendido em sua complexidade. É o que se poderia chamar de uma internacionalização pela superfície.
Esse padrão não é exatamente novo. A própria relação da indústria americana com mercados estratégicos, como a China, historicamente oscilou entre o interesse comercial e a representação estereotipada. Mesmo em casos de maior aproximação, especialmente em coproduções, a autenticidade muitas vezes cede lugar à conveniência narrativa.
O que chama atenção, no contexto atual, é que esse descompasso persiste justamente quando as condições para superá-lo nunca foram tão favoráveis. A internacionalização da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o aumento de produções filmadas fora dos Estados Unidos e a presença crescente de profissionais estrangeiros no circuito global indicam um caminho de transformação. Mas, como mostram “Bola pra Cima” e “Homem em Chamas”, esse processo ainda avança em ritmo mais lento do que o necessário.
No fim das contas, o Brasil pode até estar “na moda” em Hollywood. Mas, enquanto continuar sendo tratado como pano de fundo genérico, e não como sujeito de suas próprias histórias, essa visibilidade seguirá sendo, no mínimo, incompleta.