A ‘punhalada de Flávio’, vídeo de Michelle Bolsonaro que marca a mais nova crise na campanha do filho 01, não tem nada de desabafo. É roteiro redigido, com precisão cirúrgica de palavras e de tempo, para o lançamento informal de sua pré-candidatura. Não é mera obra do acaso que as declarações da madrasta esculachando o enteado tenham vindo à público faltando exatamente um mês para a convenção do PL.

Rachadinha sempre fez parte da tradição da família bolsonarista, mas nunca houve, nem nos tempos do Queirós, uma lavação de roupa suja tão aberta e calculada como a que vemos agora. O movimento de Michelle nos diz algumas coisas. Primeiro, que as pesquisas e o crescente sentimento de vitória de Lula, talvez liquidando a fatura ainda no primeiro turno, assustam mais Jair Bolsonaro do que a iminente volta para a Papudinha. Difícil imaginar que ela teria agido à revelia da vontade do marido. Segundo, que o próprio partido, o PL, também busca um caminho para contenção de danos depois do efeito Dark Horse. Seja a ala que defende a troca pela ex-primeira-dama, seja o grupo que endossa Flávio, mas que quer ter mais voz e poder de decisão na campanha – a começar pelo fechamento da chapa, escolhendo o vice.

Mas há uma certeza. O vídeo de Michelle coloca o bolsonarismo e o PL numa corrida contra o tempo: eles têm menos de 30 dias para tentar construir uma unidade que, hoje, está longe do horizonte. A começar pelas reações dos irmãos, que decidiram não apanhar calados. A punhalada de Flávio faz o bolsonarismo sangrar. Nas redes, o apoio ao candidato sofreu abalos que podem ser decisivos para uma candidatura já fragilizada pela irmandade com Daniel Vorcaro.

Como carta na manga, os irmãos bolsonaristas vem dobrando a aposta na ‘trumpização’ da eleição brasileira, induzindo cada vez mais a interferência dos Estados Unidos e da Casa Branca para atacar Lula e desestabilizar o Brasil. Trump vem dando sinais de que está gostando do jogo. Do tarifaço ao recente endosso a um artigo atacando a democracia brasileira, o presidente sem escrúpulo também mostra que não tem limites. Flávio Bolsonaro é a ameaça suprema à soberania brasileira antes mesmo da contagem dos votos.

O risco Michelle, no entanto, não é menor. O vídeo mostrou sua capacidade de dialogar com mulheres e se vender como a candidata defensora da família conservadora e evangélica. Não à toa, ela usou a palavra marido oito vezes na gravação, além de reafirmar sua fé e sua capacidade de perdoar. Mostrou tudo isso, mas também muita malícia política. A persona Michelle Bolsonaro exibe uma figura resiliente, temente a Deus e aos valores conservadores, sem apelar para o extremismo político dos enteados. Seu extremismo é outro, o religioso. Seria o suficiente para equilibrar o jogo com Lula? Muito provavelmente, não. Mas tem capacidade de sacudir a estratégia de campanha e reorganizar a polarização dos próximos meses. Michelle daria um refresh no bolsonarismo desgastado por escândalos, polêmicas e tiros nos próprios pés.  

Punhaladas à parte, resta saber se o vídeo da fervorosa Michelle é mais um tiro no pé bolsonarista ou se é bala de prata na candidatura do enteado. A resposta não deve demorar muito para ser conhecida. Mas é certo que a Casa Branca gostou do que viu. Quanto mais frágil e abalado, Flávio Bolsonaro é a marionete perfeita para seus planos de colonizar o Brasil.

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