Pesquisa Atlas comprova: pangaré de Flávio Bolsonaro deixa a direita rachadinha

“Irmão. Estou e estarei contigo sempre”. A relação de irmandade, na alegria e na tristeza, de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro vem cobrando um preço caro para o filho 01. Os R$ 134 milhões do filme Dark Horse fizeram o senador despencar 6 pontos percentuais na primeira pesquisa após a divulgação de áudio e mensagens. Isso é muita coisa e talvez só início do abismo. Flávio Bolsonaro passou de cavalo puro sangue a pangaré das eleições, deixando a direita rachadinha para a disputa de outubro.

A divisão da direita já estava no ar antes mesmo da hecatombe vivida pelo senador na semana passada. Mas todos os ensaios de candidatos do campo conservador camuflados de direita limpinha esbarravam na intensa polarização política vivida no país. Remavam contra a maré porque o Brasil que vai às urnas não se divide entre direita e esquerda, mas, sim, entre lulistas x bolsonaristas ou antibolsonaristas x antilulistas. Realidade de 2022, que se repetia agora em 2026, e deixava pouco espaço para qualquer outra candidatura chegar a 4 de outubro sem passar vergonha.

Ainda estamos em maio, mas os ventos parecem mudar de direção depois de revelada a relação Flávio e Vorcaro. Enquanto Lula se consolida na liderança, a direita se divide. E, entre eles, a lógica é simples: a fragilidade de um é a oportunidade dos demais, reforçando o ditado que diz “na política, vácuo se ocupa”, mesmo que o discurso seja de morde e assopra.

É isso que começamos a ver já nas primeiras horas depois que a casa caiu para Flávio Bolsonaro. A pesquisa da Atlas só confirma que a avenida segue aberta, o que deixa o bolsonarismo emparedado e sem muitas cartas na manga. Renan Santos, o mascote da extrema direita, chamou Flávio de “ladrão” nas redes sociais. Romeu Zema também subiu o tom, dizendo que a relação bolsonarista com Vorcaro era imperdoável. “Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa”, afirmou, se esquecendo que a relação do banqueiro do Master é com todo o clã bolsonarista. Talvez Zema venha assistindo demais à GloboNews e seu PowerPoint. Dias depois, o ex-governador de Minas recuou e disse que se sentia decepcionado e que o caso Dark Horse era “página virada”. Mais uma vez, ele se engana. A página ainda está sendo escrita e novos capítulos virão por aí.

Ronaldo Caiado, o avatar de Gilberto Kassab para outubro, teve comportamento parecido. Primeiro, falou que Flávio Bolsonaro deveria responder a todos os questionamentos, classificando o episódio como “falha de ordem pessoal” do filho 01. Dias depois, mudou o tom, afirmando que o “fundamental é derrotar o PT”. Caiado só se esquece que, para isso, é preciso que o haras da direita tenha algum cavalo competitivo e não apenas pangarés.

O morde e assopra da direita vai seguir pelas próximas semanas e meses, se orientando por novos fatos e, também, pelos números das pesquisas. A Atlas desta terça-feira traz recados claros. O primeiro deles é que nenhum candidato da direita ameaça Lula no segundo turno. E que o tetra no primeiro turno não parece um sonho distante.

O segundo recado é que o bolsonarismo se manteve fiel a Flávio Bolsonaro, que recuou seis pontos, mas seguiu acima dos 30%. Se nem a pandemia e a fama de genocida fazia o pai cair abaixo dos 30, o que dizer de uma ajudinha camarada de R$ 134 milhões? Não pega nada para o bolsonarista raiz. O problema, para eles, é que o piso até pode levar para o segundo turno, mas não é suficiente para ganhar a eleição.

O terceiro ponto que a pesquisa mostra é como se divide o espólio eleitoral da crise. Com Flávio no páreo, Zema e Renan abocanham 2 pontos cada, com o segundo chegando a quase 7% das intenções. Na prática, pouca coisa muda e todos morrem abraçados.

Os demais cenários vão ficando mais interessantes para aqueles que querem ocupar o vácuo bolsonarista, seja para sonhar com a vitória em outubro ou, para quem tem o pé no chão, para se consolidar como liderança do campo conservador. A troca de Flávio por Michelle Bolsonaro hoje representaria uma queda de mais 10 pontos. É claro que, caso seja candidata, ela teria tempo para aglutinar o campo bolsonarista. Mas, nas contas de hoje, quem mais cresce com a mudança é Romeu Zema, que praticamente dobra e chega a 10% na pesquisa. Conclusão: é tentador, para ele, querer que o inferno astral de Flávio Bolsonaro se arraste pelos próximos meses. A pesquisa de hoje é um recado para que o ex-governador volte a morder mais. Assoprar pra quê?

O cenário sem um nome bolsonarista (o que, convenhamos, é quase irreal) alimentaria ainda mais as esperanças de Romeu Zema e Ronaldo Caiado, que estão tecnicamente empatados. Zema aparece com 17% enquanto Caiado, 13,8%.

Os números mostram que é difícil imaginar a direita se unindo e escolhendo um dos seus para enfrentar Lula. Seguirão rachados. Os próximos passos do bolsonarismo devem mexer no xadrez. Se optar por sustentar Flávio, a chance de ficar abaixo dos 30% são reais, sofrendo ataques consecutivos por novos fatos que o celular de Vorcaro podem revelar ou pela língua dos próprios adversários de direita. Se optar por Michelle Bolsonaro, terão que remar contra a maré, mas com possibilidade real de ir para o segundo turno e manter o protagonismo da família no legado da polarização brasileira. Caso a escolha seja por alguém sem o sobrenome Bolsonaro, como o senador Rogério Marinho, as chances de vexame são maiores. Eles teriam que construir uma campanha em menos de cinco meses e é difícil pensar em um candidato de confiança do clã que não tenha capivara solta por aí.

A conta, na política, é simples: com a direita rachadinha, Lula se fortalece e suas chances de vencer no primeiro turno começam a ganhar contornos mais reais. Enfim, Daniel Vorcaro fez algo de bom para o Brasil.

Mais de Natalia Szermeta Boulos