Milei
Reuters

Milhares de pessoas voltaram às ruas da Argentina nesta terça-feira (12) em protesto contra os cortes orçamentários nas universidades públicas promovidos pelo governo de Javier Milei. As manifestações ocorreram em Buenos Aires, Córdoba, Rosário, La Plata e outras cidades do país, reunindo estudantes, professores, pesquisadores, sindicatos e reitores em uma das maiores mobilizações universitárias desde o início do governo ultraliberal.

Os protestos foram convocados após universidades nacionais denunciarem colapso financeiro provocado pelo congelamento de verbas operacionais e pela queda acelerada do poder de compra dos salários docentes diante da inflação argentina. Segundo o Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), que reúne os reitores das universidades públicas do país, o orçamento universitário perdeu mais de 70% do valor real desde a posse de Milei, em dezembro de 2025.

Na capital argentina, a mobilização ocupou parte da Avenida de Mayo e da Plaza de los Dos Congresos, em frente ao Congresso Nacional. Cartazes com frases como “Sem universidade pública não há futuro” e “Ajuste não é liberdade” foram vistos durante os atos, que também incluíram aulas públicas e apresentações culturais.

Universidades falam em risco de paralisação

Reitores e sindicatos afirmam que diversas instituições já operam sob risco de paralisação parcial por falta de recursos para pagamento de contas básicas, manutenção predial, bolsas estudantis e funcionamento de laboratórios.

A Universidade de Buenos Aires (UBA), considerada uma das principais da América Latina, alertou nas últimas semanas que o orçamento atual “não cobre sequer despesas mínimas de funcionamento”. Segundo a instituição, o custo de energia elétrica e serviços aumentou drasticamente após a retirada de subsídios promovida pelo governo Milei.

Veículos argentinos como Clarín, Página/12 e La Nación relataram que universidades passaram a reduzir horários de funcionamento, suspender atividades de pesquisa e limitar programas de extensão universitária devido à crise financeira.

Em Córdoba, estudantes ocuparam simbolicamente prédios administrativos e organizaram assembleias abertas. Já em Rosário, sindicatos docentes acusaram o governo de promover “desmonte gradual” da educação pública argentina.

Milei mantém discurso contra universidades

Apesar da pressão, Javier Milei manteve o discurso de enfrentamento às universidades públicas. Desde a campanha presidencial, o presidente argentino critica o que chama de “estrutura ideológica” das instituições de ensino superior e acusa setores acadêmicos de funcionarem como “aparelhos políticos” financiados pelo Estado.

Nos últimos meses, Milei e integrantes do governo passaram a defender auditorias sobre gastos universitários e maior abertura para expansão do ensino privado. Em entrevistas recentes, o presidente afirmou que “não existe almoço grátis” e que o Estado argentino “não pode continuar financiando estruturas deficitárias”.

O porta-voz presidencial Manuel Adorni declarou nesta terça-feira que o governo “não irá retroceder no ajuste fiscal” e afirmou que as universidades “também precisam fazer parte do esforço de reorganização econômica do país”.

A postura ampliou a tensão entre a Casa Rosada e setores historicamente ligados à educação pública argentina, considerada um dos pilares simbólicos do sistema educacional do país desde a Reforma Universitária de 1918.

Crise econômica amplia conflito

Os cortes nas universidades fazem parte do amplo programa de ajuste fiscal implementado por Milei desde o início do mandato. O governo argentino reduziu subsídios, congelou obras públicas, cortou ministérios e promoveu forte retração dos gastos estatais em busca do chamado “déficit zero”.

Embora o governo tenha conseguido desacelerar parcialmente a inflação mensal nos últimos meses, o impacto social do ajuste segue elevado. Dados do Observatorio de la Deuda Social da Universidad Católica Argentina (UCA) apontam crescimento da pobreza, queda do consumo e deterioração acelerada da renda de trabalhadores e aposentados.

O setor universitário tornou-se um dos principais focos de resistência ao governo ao lado de sindicatos, aposentados e movimentos sociais. Em abril, uma marcha universitária nacional já havia levado centenas de milhares de pessoas às ruas em Buenos Aires, considerada uma das maiores manifestações contra Milei desde sua posse.

Agora, entidades estudantis afirmam que novas paralisações e mobilizações nacionais devem ocorrer caso o governo mantenha os cortes previstos para o segundo semestre.

Universidades viram símbolo político

O conflito também passou a ter forte dimensão simbólica na política argentina. Para opositores, os cortes representam ameaça histórica ao modelo de universidade pública gratuita consolidado no país ao longo do século XX. Já apoiadores de Milei defendem que o sistema universitário argentino se tornou financeiramente insustentável e excessivamente dependente do Estado.

Analistas ouvidos por veículos argentinos avaliam que o embate ajuda a aprofundar a polarização política em torno do governo. Enquanto Milei mantém apoio importante entre setores liberais, empresários e parte da classe média, a resistência universitária passou a funcionar como um dos principais polos de reorganização da oposição social ao ajuste econômico.

Nos bastidores da Casa Rosada, interlocutores do governo admitem preocupação com o impacto das mobilizações sobre a imagem internacional da Argentina, especialmente diante da tradição histórica do país na produção científica e universitária na América Latina.

Mesmo assim, auxiliares de Milei afirmam que o governo não pretende recuar dos cortes e consideram o enfrentamento às universidades parte da disputa ideológica central do mandato.

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