A Copa do Mundo que mudou a maneira de assistir à Copa

Foi a Copa dos protagonistas? A Copa do streaming? A Copa das bets? Talvez tenha sido um pouco de tudo isso. Fato é que a Copa do Mundo de 2026 derrubou alguns paradigmas e criou outros — especialmente na maneira como o público brasileiro se relaciona com a transmissão de um evento esportivo.

A Globo sentiu o golpe. O maior conglomerado de mídia do país manteve a liderança de audiência, mas a pulverização dos direitos de transmissão expôs uma mudança que já vinha se desenhando: o espectador não quer mais apenas assistir ao jogo. Ele quer participar dele. Foi nesse cenário que a CazéTV se consolidou como o grande fenômeno midiático do Mundial. A plataforma liderada por Casimiro Miguel não apenas renovou recordes de audiência no YouTube, como também consolidou sua presença em serviços de streaming diversos como Amazon Prime Video e Disney+. Mais importante, porém, foi ter transformado a transmissão em uma experiência comunitária. A CazéTV não ofereceu simplesmente uma alternativa à televisão tradicional. Criou um ambiente de pertencimento.

E, em termos de análise esportiva, também entregou mais. Rafael Oliveira, Fernando Duran e Amanda Viana, entre outros, demonstraram conhecimento sobre equipes, jogadores e propostas de jogo. Suas análises eram detalhadas, capazes de interpretar o que acontecia em campo e projetar os caminhos possíveis para a partida. Na Globo, por outro lado, muitas vezes prevaleceu o comentário protocolar, a explicação do óbvio.

A emissora percebeu a mudança e reagiu mal. Ao tentar imitar a linguagem da CazéTV, passou do ponto em alguns momentos e expôs profissionais a situações constrangedoras. Não conseguiu reproduzir espontaneidade porque espontaneidade, quando fabricada, deixa de ser espontânea.

O SBT, por sua vez, fez uma cobertura digna dentro de suas limitações. Aproveitou o afeto do público brasileiro por Galvão Bueno e construiu uma cobertura baseada em identificação. Não venceu a disputa, mas também não saiu derrotado.

A Copa também foi atravessada pela guerra cultural. Houve a torcida contra a Argentina pelo simples prazer de torcer contra a Argentina. Houve, ainda, o debate sobre as bets e os efeitos da dependência em apostas esportivas — uma discussão legítima e necessária, sobretudo no que diz respeito à saúde mental. Mas até esse debate foi contaminado por interesses comerciais.

É difícil ignorar que a Globo estimulou intensamente a discussão sobre as bets num momento em que a CazéTV, cujo modelo de negócio é sustentado peremptoriamente pela publicidade de casas de apostas, consolidava seu protagonismo. Ao mesmo tempo, a própria Globo possui participação na MGM Bet e também mantém anunciantes do setor. O resultado foi um debate importante, mas parcialmente enviesado por interesses econômicos.

A Copa ainda mostrou como o futebol continua sendo atravessado pela política. Donald Trump interferiu diretamente na competição ao pressionar pela anulação do cartão vermelho de um jogador da seleção dos Estados Unidos. Mais uma vez, ficou evidente que a Copa do Mundo nunca se resume às quatro linhas.

Mas o principal legado de 2026 talvez esteja em outro lugar.

A nova geração de espectadores quer consumir o futebol de maneira fragmentada, participativa e comunitária. Quer comentar, reagir, interagir e escolher como assistir. Não aceita mais necessariamente a autoridade de uma única emissora como mediadora absoluta do espetáculo.

Cabe aos grandes players compreender essa transformação.

Em 2026, a Globo falhou nessa tarefa. Se há um grande vencedor da mídia nesta Copa do Mundo, ele é, inequivocamente, a CazéTV.

Mais de Reinaldo Glioche