Sem o apoio dos partidos do Centrão, sem uma candidata a vice pra chamar de sua e com a Polícia Federal mordendo seu calcanhar, Flávio Bolsonaro recorreu à verborragia e ao extremismo de Javier Milei para atacar Lula, PT e o “socialismo” na convenção do PL. Foi sua tentativa, a última cartada antes da campanha, para animar a tropa bolsonarista depois do escândalo Dark Horse, das rusgas com Michelle Bolsonaro e do tarifaço de Trump estampado na testa.
A convenção, toda colorida em verde e amarelo, apostou num discurso importado e em espanhol. Porque quem não tem cão, caça com raposa. Milei fez sua dancinha ao lado de Flávio e se mostrou um tanto obsessivo na figura de Lula. Um caso para terapia, sem dúvida.
“O socialismo na América Latina está sendo aniquilado eleição após eleição. Na Argentina, na Colômbia, no Peru e, em outubro, também no Brasil”, esbravejou Milei, para depois ungir o nome de Flávio como o filho de seu grande amigo Jair Bolsonaro. “Considero Flávio o homem que pode parar Lula”. O microfone, sábio, falhou algumas vezes, deixando Milei mudo. Foi meio constrangedor. Mas a verdade é que o presidente argentino não empolgou nem com a ajuda da trilha sonora que tentava criar um clima de empolgação e superação.
A convenção, no geral, foi pra lá de brega. O PL de Valdemar Costa Neto e o bolsonarismo precisam aprender com Milei que ser conservador e de extrema direita não precisa ser piegas. O encontro foi uma mistura de mal gosto de culto messiânico e seus acordes dramáticos de orquestra com a receita sensacionalista dos programas de auditório. Teve até vídeo, numa espécie de arquivo confidencial, das filhas de Eduardo, o irmão foragido, dizendo que estão com saudades e que querem voltar para o Brasil.
Flávio Bolsonaro chorou algumas vezes, especialmente na hora de discursar. Talvez pelo acúmulo da emoção (e não pela falta de preparo ou por receio de desmaiar mais uma vez), preferiu fazer o discurso segurando o púlpito e lendo cada palavra no teleprompter. Mas ele é um bom ator e interpretou bem o seu papel. Agora candidato oficial à Presidência, Flávio assumiu que é o porta-voz do pai. O candidato avatar. E que está lá para fazer o pai subir a rampa no dia 1º de janeiro de 2027. Só se esqueceu de dizer como faria isso. Dando golpe contra a decisão do STF? A promessa mostra que bolsonarismo nunca entendeu – nem irá entender – o que é o Estado Democrático de Direito.
Boa parte da fala foi dirigida ao próprio pai, uma espécie de agradecimento pelo endosso à sua candidatura. “Pai, a você que está preso agora e que não pode assistir a gente agora. Pai, eu te amo com todas as minhas forças. E vou até o fim para honrar tudo que você me ensinou”.
Falou em indignação e em injustiça por tudo que seu pai e sua família viveram nos últimos anos. Falou que precisa parar Lula e não deixar que o petista indique novos Alexandres de Moraes para o STF. Ato falho, porque Moraes não foi indicado por Lula. E o ministro que agora começa a fechar o cerco a Flávio no escândalo do Banco Master foi indicado pelo próprio pai dele.
No fim do discurso, lembrou de falar do Brasil. E copiando o próprio pai, não tinha nada para dizer. Só faltou soltar o bordão do “tem que mudar tudo isso que tá aí, taoquei?”. Mas Flávio não decepcionou. Terminou a convenção resgatando o “Brasil Acima de Tudo. Deus Acima de Todos”. Só não disse onde Daniel Vorcaro e o Banco Master se encaixam, se acima ou abaixo dele.
Por falar em Vorcaro, chega a ser cômico o trecho de um dos jingles da convenção. “Alô quadrilha, pode esperar. Porque em outubro a sua hora vai chegar”. Só resta saber se a Polícia Federal vai esperar até lá.