Alcolumbre brinca de ‘esconde-esconde’ com a escala 6×1 para fugir do ‘pega-pega’ da Polícia Federal

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, vem cumprindo com maestria o papel do político que a população mais despreza: aquele ser fisiológico que usa o mandato para defender interesses próprios, se blindar de escândalos e rifar a vontade da maioria dos brasileiros em favor de alguns poucos que têm muito dinheiro. A última semana sintetiza, à risca, porque tanta gente diz que o Congresso Nacional é o inimigo do povo.

Às rusgas com o presidente Lula, Alcolumbre decidiu engavetar, sem prazo para tirar da gaveta, a tramitação da PEC do fim da escala 6×1, que reduz a jornada de trabalho sem redução de salários. Não se trata de pura maldade, mas, sim, cálculo político de interesses dele e de um caminhão de lobistas que representam o empresariado e a Faria Lima – o 0,1% mais rico que foge do fim da 6×1 como o diabo foge da cruz.

Além de empurrar a redução da jornada com a barriga, o presidente do Senado decidiu ampliar a pressão ao Palácio do Planalto nos últimos dias e tirou da cartola um pacote de maldades, aprovando uma série de projetos que podem aumentar as despesas do governo em cerca de R$ 800 bilhões na próxima década. Tudo isso sem dizer de onde virá o dinheiro, o que é inconstitucional e fere a Lei de Responsabilidade Fiscal.

A pauta bomba tem tudo para voltar para a cartola de Alcolumbre depois que o Supremo Tribunal Federal botar ordem na casa, mas a pergunta que deve ser feita é: por que o presidente do Senado está agindo desta maneira e tenta, a todo custo, fustigar o presidente Lula?

A resposta vem do Amapá, sua terra natal, e está intimamente ligada ao escândalo BolsoMaster e a relação do senador com Daniel Vorcaro. Ao ver a casa desabando, o presidente do Senado resolveu cair atirando, mesma estratégia que o famigerado Eduardo Cunha usou quando estava acuado pela Lava Jato dez anos atrás.

Nas contas de Davi Alcolumbre, as investigações da Polícia Federal que comprometem ele e seus aliados expressam a vontade de Lula e não o dever de ofício da própria PF. Vamos aos fatos que são públicos até aqui.

O presidente do Senado teria recebido 30 milhões de dólares (o que dá mais de 150 milhões de reais) como propina paga por Daniel Vorcaro. A fortuna teria sido depositada em conta secreta no exterior e, depois, repassada a Alcolumbre como contrapartida pelo apoio a uma demanda de interesse do Banco Master. A bomba que chacoalha o parquinho do senador foi revelada pela revista Veja e seria um dos tópicos propostos por Vorcaro em sua tentativa de fechar acordo de delação premiada. Alcolumbre nega e se diz perseguido.

Mas convenhamos que é minimamente curioso – até porque é difícil acreditar em coincidência – isso vir a público exatamente na semana em que ele aprova o pacote de maldades contra o governo e engaveta a redução de jornada. O presidente do Senado sabe onde o calo aperta. O que Alcolumbre está fazendo é brincar de ‘esconde-esconde’ com o fim da 6×1 para tentar, assim, escapar do ‘pega-pega’ com a Polícia Federal.

Mas não tem muito jeito porque o enrosco com o BolsoMaster é ainda maior. É preciso investigar se os 30 milhões de dólares não estão ligados a uma suposta ajuda para o banqueiro na Amprev, a Amapá Previdência.

Em fevereiro, a Amprev foi alvo de operação da Polícia Federal por ter investido 400 milhões de reais em ativos Banco Master. É o segundo maior aporte de institutos estaduais e municipais de previdência nas mãos de Daniel Vorcaro, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, de Cláudio Castro. Comparando o tamanho dos dois estados, a Amprev foi uma galinha de ovos de ouro para o Master. Alcolumbre se enraiveceu porque o principal nome no radar da PF três meses atrás foi Jocildo Silva Lemos, diretor-presidente da Amprev, e seu ex-tesoureiro de campanha, em 2022. “Onde já se viu a Polícia Federal mexer assim com meu tesoureiro? Como Lula deixa isso acontecer?”, deve ter se indignado à época.

Poucas semanas depois, como troco e movido por vingança, o presidente do Senado foi o grande articulador de duas derrotas do Palácio do Planalto no Congresso: derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria, aquele jabuti que buscava reduzir a pena de Bolsonaro e tirar ele da cadeia em pouco tempo; e impôs a rejeição ao nome de Messias para o STF. Há mais de um século o Senado não vetava uma indicação presidencial para compor o Supremo.

Davi Alcolumbre começa a ficar sem tempo antes que a Polícia Federal bata à sua porta às seis da manhã. Como armas para contra-atacar, ele segue tendo suas gavetas no comando do Senado. A primeira ele fecha, escondendo tudo que é de interesse do governo, como o fim da 6×1 e a PEC da Segurança Pública. A segunda ele abre, fustigando Lula. Nos dois casos, quem sai perdendo é o povo.

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