Trump cria ‘taxa Nike’: alguém acredita que ele realmente se preocupa com trabalho forçado?

O governo Donald Trump anunciou ontem mais um movimento para ampliar globalmente as tarifas protecionistas, mirando de novo a economia brasileira. Mais de 50 países, incluindo o Brasil, serão taxados em 12,5% por não terem mecanismos efetivos para evitar importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado, segundo avaliação (e sentença) da USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos.

O novo tarifaço impacta o Brasil apenas um dia depois de Trump anunciar taxação de 25% para produtos brasileiros como forma de retaliação ao uso do Pix como meio de pagamento. Por que o Pix incomoda Trump? Simplesmente, porque o governo brasileiro criou um mecanismo que não depende das gigantes financeiras norte-americanas para fazer transações financeiras.

Mas alguém, mesmo entre os norte-americanos mais trumpistas, realmente acredita que Donald Trump amanheceu compadecido com a história de milhões de pessoas que trabalham em situação análoga à escravidão?

O que o governo americano está fazendo é reeditar o tarifaço do ano passado, usando, agora, a desculpa de combater um modelo de produção internacional que a própria economia dos Estados Unidos criou há muito tempo. A Nike, famosa e gigante fabricante de produtos esportivos, foi pivô de vários escândalos, desde os anos 90, por uso de mão de obra infantil ou análoga à escravidão em linhas de produção em vários países do mundo. Imagens de crianças paquistanesas costurando bolas de futebol rodaram e chocaram o mundo há 30 anos. Já faz algum tempo, a empresa diz que mudou sua política de governança na contratação de fornecedores, mas a lógica aplicada pela Nike deu sobrevida competitiva para grandes marcas norte-americanas ao longo das últimas décadas. Agora, quase como ironia, Donald Trump quer criar a taxação para punir países negligentes no combate ao trabalho forçado, uma espécie de ‘taxa Nike’.

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