Menos de uma semana depois de avançar o cavalo no xadrez político na América Latina e classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o presidente Donald Trump faz mais ataque direto à soberania brasileira. O anúncio estapafúrdio de taxação de 25% aos nossos produtos não tem nada de política comercial protecionista, mas, sim, uma forma de pressionar o governo brasileiro sobre a existência do Pix como meio de pagamento.
Não à toa, o documento que anuncia o novo tarifaço faz 20 referências ao Pix, classificando a solução brasileira de prática comercial “irrazoável”. O nome disso é chantagem de quem, mais uma vez, diz ao mundo que ‘ele faz o que quer porque ele pode’. A sobretaxação, tirada da cartola de um dia para o outro, é uma tentativa de impositiva para fazer o governo brasileiro recuar.
O Palácio do Planalto, no entanto, já deixou claro que o Pix é inegociável e que as novas taxas serão debatidas e negociadas, diplomaticamente, como o presidente Lula fez em julho do ano passado.
Trump age e tenta ganhar em duas frentes: mira a colheita de algum incremento de proteção à economia norte-americana e, ao mesmo tempo, cria mais um factoide com o objetivo de embaralhar o jogo eleitoral brasileiro e favorecer Flávio Bolsonaro.
Tanto o tarifaço quanto a classificação do crime organizado no Brasil como terrorista acontecem depois do filho 01 ir a Washington visitar seu ídolo supremo. Flávio Bolsonaro não disfarçou sua de ideia criar notícia para abafar o escândalo do filme Dark Horse e seu envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro. Estava nas cordas e buscou socorro ao lado do irmão, Eduardo, o foragido. Para Trump, a situação delicada da extrema direita brasileira surgiu como oportunidade para seguir seu planejamento de expandir seus tentáculos na América Latina e mexer com a geopolítica mundial.
Para os dois, a tentativa de um jogo de ganha-ganha. Para o Brasil, duas claras ações estrangeiras de ataque à nossa soberania. Acuado nas pesquisas e pela Polícia Federal, Flávio Bolsonaro vê o alinhamento com os Estados Unidos como sua tábua de salvação para se manter viável como candidato, ainda mais depois que as primeiras pesquisas eleitorais mostraram ele derretendo em pleno outono e inverno. É de se imaginar como estará quando chegar o calor de outubro.
Mas o all in bolsonarista tem seus riscos – e alguns efeitos colaterais. Reforça a imagem de um entreguista e patriota de araque, o que nunca duvidamos, embora ele tentasse se esconder atrás das cores da bandeira brasileira. Seu plano de governo, até aqui, é deixar o Brasil de joelhos diante dos norte-americanos. A recriação dos tempos coloniais. O Brasil como o Alasca da América do Sul.
O passo incerto de Flávio Bolsonaro, no entanto, é atentar contra o Pix, patrimônio e queridinho dos brasileiros. A fama de ser o candidato que quer acabar com o meio de pagamento pode doer fundo na urna, especialmente entre os homens e na faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos, dois recortes do eleitorado em que ele costuma ter bons desempenhos. Flávio Bolsonaro não pode se esquecer que Donald Trump, como bom carrasco, não perdoa. Já deu várias demonstrações de que seu amor e sua lealdade ao bolsonarismo é frágil e errático. Quem baixa demais a cabeça, acaba sentindo a guilhotina.